Guy Roux, treinador do Auxerre, acena para os adeptos após derrotar o Utrecht na segunda eliminatória da Taça da UEFA, no estádio Abbe Deschamps, em Auxerre. O Auxerre venceu por 4 a 0.

Decorria o ano de 1954. Na Suíça, a então Alemanha Ocidental conquistava o seu primeiro título mundial de futebol frente à poderosa Hungria de Puskás. Em Portugal, era inaugurado o Estádio da Luz, casa do Sport Lisboa e Benfica até à construção do atual reduto, em 2003. Ali, guiadas pelo génio de Eusébio, as “águias” viveram o seu “período de ouro” dos anos 60, no qual conquistaram duas Taças dos Campeões Europeus.

Mais a norte, a 1400 quilómetros de distância, um jovem de 16 anos fazia a estreia pela equipa sénior do seu clube, que então militava na última divisão do futebol francês. O seu nome era Guy Roux. O clube, AJ Auxerre. Juntos, iriam percorrer meio século, naquela que viria a ser uma das ligações de maior sucesso na história do futebol.

Nascido a 18 de outubro de 1938 na pequena vila de Colmar, Roux cedo teve a noção de que nunca iria vingar no desporto-rei enquanto praticante. Segundo o próprio, “ou serei um jogador de primeira divisão, ou não serei jogador profissional”. Depois de três anos sem grande preponderância no clube que o formou, o centrocampista representou ainda os modestos Stade Poitevin e Limonges, antes de perceber, definitivamente, que o seu futuro seria fora das quatro linhas.

Guy Roux assume comando técnico do Auxerre aos 22 anos de idade

No verão de 1961, surge a oportunidade pela qual ansiava. Com vinte e dois anos, candidata-se à vaga de treinador principal do Auxerre. Colmatou a falta de experiência no cargo com as promessas de apostar nas camadas jovens do clube e limitar os gastos ao máximo, incluindo o respetivo salário – durante o primeiro contrato, ganhava apenas 7200 francos anuais, o equivalente a pouco mais de mil euros atualmente. Apesar de, na altura, o clube contar já com cinquenta anos de existência, nunca lograra alcançar nenhum feito de destaque. Este facto encorajou o presidente Jean Garnault a arriscar e aceitar a proposta do jovem, decisão que se viria a revelar decisiva para o sucesso da formação do centro de França.

A enorme força de vontade e o trabalho exaustivo que Roux vinha a aplicar na equipa só começariam a dar frutos passados alguns anos. Finalmente, em 1970, o jovem técnico consegue a promoção à terceira divisão. Quatro anos depois, chega à Ligue 2, segundo escalão do futebol francês, cumprindo assim o objetivo de tornar o clube profissional.

Em 1979, o técnico começa a ganhar alguma notoriedade a nível nacional ao levar a equipa à final da Taça de França, deixando pelo caminho os primodivisionários Montpellier, Lille e Estrasburgo. No derradeiro encontro, o Auxerre é derrotado no tempo extra pelo Nantes, quatro vezes campeão francês. Porém, tanto o treinador como a equipa acabam aplaudidos de pé pelo público do Parc des Princes, rendido à surpreendente campanha na prova.

Aposta na formação com frutos evidentes

Na época seguinte, Guy Roux concretiza o sonho de levar o clube provinciano ao escalão de topo do futebol francês, vinte anos depois de se ter candidatado ao lugar de treinador. Tal como prometera, o técnico pretendia tirar o máximo partido possível da formação do clube, visão partilhada pelo então presidente Jean-Claude Hamel. Assim, uma vez chegados à primeira divisão, decidem construir uma academia jovem de topo, ao invés de gastar uma fortuna no reforço do plantel. E os espólios dessa decisão não tardaram a aparecer: nos anos seguintes, o clube lançou para a ribalta jogadores como Basile Boli, Pascal Vahirua ou o bad boy Éric Cantona. Mais tarde, surgem nomes como Philipe Mexès, Bacary Sagna, Abou Diaby e Djibril Cissé.

Mais recentemente, apesar do clube vaguear pela segunda divisão, há ainda alguns jovens talentos provenientes das escolas do emblema francês: Yaya Sanogo (Toulouse), Paul-Georges Ntep (Saint-Étienne), Sébastien Haller (Frankfurt) ou até Willy Boly, defesa-central contratualmente ligado ao FC Porto que brilha, por esta altura, no Wolverhampton de Nuno Espírito-Santo. Nada mau para uma cidade provinciana com pouco mais de trinta mil habitantes.

Título de campeão francês chega em 1995/96

A época de estreia na Ligue 1 decorreu sem sobressaltos, com a equipa a conseguir um lugar a meio da tabela. Em 1983/84, o Auxerre termina em terceiro lugar, garantindo assim uma qualificação histórica para a Taça UEFA, onde viria a ser eliminado logo na primeira ronda à custa do Sporting. No ano seguinte, a equipa de Roux cai perante o AC Milan, apesar de ter surpreendido os italianos na primeira mão com uma vitória por 3-1. O clube continuaria a estabilizar-se internamente nas épocas que se seguiram, voltando a fazer mossa na Europa ao atingir os quartos-de-final da Taça UEFA em 1989/90 e as meias-finais logo na época seguinte. Aí, foi eliminado através do desempate por grandes penalidades pelo Dortmund, já depois de ter deixado pelo caminho o poderoso Ajax de Louis Van Gaal, que, recorde-se, viria a conquistar a Liga dos Campeões dois anos depois.

Os anos noventa representaram o período de maior sucesso para Roux e para o seu Auxerre. Em 1994/95, ergue a Taça de França pela primeira vez, feito que repete dois anos depois. O melhor, contudo, estava guardado para a temporada 1995/96. No arranque da competição, o Nantes era principal favorito ao primeiro lugar, sendo que Paris Saint-Germain, Marselha, Mónaco, Bordéus e Lens se afiguravam, igualmente, como fortes candidatos. Nenhum deles, porém, foi capaz de afastar Guy Roux do seu destino: aos 58 anos, volvidas mais de quatro décadas desde que se estreara pelo clube como jogador, conquista o título de campeão francês, feito inédito na sua carreira e na história do Auxerre.

O mítico treinador prosseguiu a eterna caminhada no banco até ao ano de 2000. Por essa altura, um ataque cardíaco obrigou-o a delegar o ceptro para o seu adjunto e ocupar um lugar da direção…mas não por muito tempo. No ano seguinte, depois de uma época bastante abaixo do expectável, Roux cede à tentação e volta a assumir as rédeas da equipa, conquistando novamente a Taça de França em 2003 e 2005. Essa final, frente ao Sedan, ditou a sua despedida do clube como treinador. Saiu dois mil jogos depois – oitocentos e noventa dos quais na Ligue 1.

Sir Alex Ferguson, por muitos considerado o melhor treinador de sempre, deixou o comando do Manchester United vinte e sete anos após a sua chegada. Aquando da despedida de Guy Roux, o Auxerre completava um centenário de existência. Metade desse tempo, passaram-no em conjunto. Para trás, ficou um legado sem paralelo na história do futebol.

Esta é a narrativa de um génio que guiou uma equipa ao sucesso, adaptando-se continuamente, ao longo de décadas, a um mundo e um desporto em constante mudança. É a lenda de um rapaz de dezasseis anos que dedicou a vida a um clube, levando-o consigo desde o zero até ao topo com o qual sonhara.

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José Rocha
Nasci na ilha Terceira, Açores, em 1993. Assim que atingi idade para tal, inscrevi-me nas escolinhas de um dos clubes locais, o Angrense. A habilidade para praticar futebol, contudo, não era proporcional à paixão que tinha pelo desporto-rei, pelo que não fui longe enquanto jogador. Posto isto, troquei as chuteiras pela caneta e continuei a procurar saber cada vez mais acerca desta modalidade, que tantos sentimentos desperta por esse mundo fora. Licenciado em Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, passei pelo jornal O Jogo, onde pude continuar a desenvolver as minhas capacidades como jornalista desportivo. Neste espaço, onde os universos do futebol e da escrita se fundem, pretendo abordar temas da atualidade desportiva, bem como "desenterrar" antigas memórias e partilhá-las convosco.