Euro 2004 Portugal
Fonte: FPF

O que é que têm em comum: Famalicão, Oriental, Fafe, Alverca e Tourizense? É uma pergunta que parece difícil de responder, é necessário ir à história do nosso futebol para perceber que também estes clubes foram importantes para o sucesso do nosso futebol.

Fernando Couto, Costinha, Rui Costa, Deco e Éder afirmaram-se como titulares em idade sénior, nestes cinco clubes, respetivamente. E apesar deste lote de cinco jogadores ter tido carreiras diferentes, todos eles tiveram no topo do futebol europeu, pelo menos uma vez.

O interessante é perceber que cada um destes jogadores históricos do futebol português se iniciou a jogar com regularidade na II Liga. Foi num contexto competitivo longe de salários exorbitantes e presenças constantes na televisão que estes jogadores começaram a jogar com frequência.

Por diversos motivos a transição de júnior para sénior é algo muito difícil na vida de quase todos os desportistas, e no caso específico do futebol, é algo que deve ser olhado com muita atenção.

Depois de brilhar nos campeonatos nacionais juniores, muitos jovens promissores vão encontrar adversários mais fortes psicologicamente, com uma maior maturação táctica (fruto de um maior conhecimento do jogo derivado da experiência), maior qualidade técnica (porque já tiveram tempo para desenvolver as suas capacidades) e evidentemente um ritmo competitivo deveras superior.

Para além destas condicionantes, muitas vezes, certos clubes, têm estrelas em determinadas posições que são intocáveis não deixando margem de manobra para futuras opções.

E, outras vezes, certas equipas têm treinadores conservadores, que não gostam de arriscar. Certamente que o extremo esquerdo dos juniores do Real Madrid não pensa no próximo ano sentar Cristiano Ronaldo no banco de suplentes! Até o próprio Cristiano Ronaldo não foi sempre titular no Sporting na primeira época que fez. Já Lionel Messi venceu a Liga dos Campeões em 2005/2006 sendo quase sempre um suplente utilizado.

Como em quase tudo no desporto e na vida, só se aprende fazendo. Praticando, errando, diagnosticando o erro, crescer a partir dele e melhorando.

No caso específico do futebol, só jogando com regularidade, começando a adquirir confiança e níveis de pressão adequados é que alguma promessa do futebol pode efectivamente transformar-se num diamante puro preste a ser lapidado e a explodir nos principais palcos do futebol mundial.

Mas nem sempre, pelas razões mencionadas, se pode começar a construir uma carreira no topo. Por vezes o caminho é longo e o Olimpo do futebol mundial chega somente alguns anos depois da transição para sénior.

Análise ao momento de afirmação dos jogadores nos clubes

José Fonte
José Fonte foi um jogador que se impôs tarde no futebol português e internacional

José Fonte por exemplo foi campeão europeu e até aos 30 anos apenas tinha dois anos como titular numa I Liga! Chegou à Premier League com apenas 30 anos! Em 2005/2006 fez parte da defesa do V. Setúbal que foi durante algum tempo a defesa menos batida do Mundo, mas tal facto não lhe permitiu ter a valorização adequada e teve que esperar mais tempo pelo seu momento de glória.

Para ter uma conclusão mais eficaz e não apenas pensar que exemplos pontuais podem ditar uma regra, decidimos observar o clube de afirmação sénior (entenda-se, clube sénior que se começou a jogar com regularidade) de todos os 87 jogadores que foram convocados para representar Portugal em fases finais desde 2000.

Decidimos estabelecer cinco critérios de diferenciação de momento de afirmação:

  • Muito Alta, quando algum jogador começou a jogar com regularidade num clube europeu, candidato à Liga dos Campeões (incluindo FC Porto em 2003/2004), algo que não teve nenhum registo.
  • Alta, jogador que no primeiro ano de sénior foi titular num dos 3 grandes do futebol português.
  • Média, jogador que começou a adquirir rotinas de jogo num clube que se classificou para a Europa ou da primeira metade da tabela da Liga (Portuguesa, noutras ligas mais fortes, apenas participando).
  • Baixa, jogador titular em equipas abaixo do meio da tabela.
  • Muito Baixa, jogador que começou a jogar com regularidade na II Liga ou num nível inferior.
  • Eis os resultados obtidos:
  • Alta – 19/87 = 22%
  • Média – 16/87= 18%
  • Baixa -14/87=16%
  • Muito Baixa -38/87=44%

Dos actuais campeões europeus: Vieirinha, José Fonte, Anthony Lopes e João Mário iniciaram o seu percurso nas equipas B dos respectivos clubes. Raphael Guerreiro começou na II Divisão francesa ao serviço do Caen e Rafa no Feirense, para além de Éder que já aqui foi citado.

Uma análise de 16 anos (entre 2000 e 2016) que deve ser olhada com atenção. Não se trata de um registo pontual de uma geração ou de um contexto futebolístico nacional específico. É algo transversal a diversas etapas do futebol nacional. Desde 2000 que nos começamos a mostrar ao Mundo até 2016, onde nos tornamos a selecção mais consistente da Europa, em Europeus, nos últimos 20 anos.

Como já referimos aqui no Linha de Passe, num artigo anterior (Portugal- um país de Milagres no Futebol), Portugal têm uma baixíssima taxa de jogadores federados séniores comparativamente com todas as selecções apuradas para o Mundial 2018, à excepção naturalmente da Islândia.

Neste contexto, com tão poucos recursos, é primordial, trabalhar ao máximo para poder aproveitá-los e sonhar em escrever páginas ainda mais douradas para o futebol e desporto nacional.

E a história têm-nos mostrando que mais que o nível competitivo, seja Liga dos Campeões ou III Divisão, o essencial para uma promessa de 20 anos é jogar com regularidade! E claro ter alguém competente que o valorize e defina as suas etapas de evolução, porque ignorar José Fonte, que com 23 anos chegou a fazer parte da melhor defesa do Mundo durante 5 meses, é algo que pode colocar em causa a carreira promissora de um futebolista. Felizmente, o futebol deu-lhe uma oportunidade, 10 anos depois.

Com quase metade dos nossos internacionais a necessitarem de divisões inferiores para se afirmarem, a criação do Campeonato Nacional de Sub-23 (começa na próxima época) é algo que vem ajudar na estruturação do futebol português. É uma medida que vem dar um espaço competitivo de maiores oportunidades para várias promessas, aumentando a probabilidade de que de forma mais rápida e com qualidade mais jovens se possam afirmar no futebol nacional.

Aguarda-se pelo início do campeonato. Portugal com esta medida mostra mais uma vez o porquê de ser considerado internacionalmente um exemplo no que à estruturação do futebol diz respeito. Que siga a onda com mais exemplos felizes!

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