10 de Abril de 2007, ao 27.º jogo Cristiano Ronaldo estreia-se a marcar na Liga dos Campeões num jogo dos Quartos de Final frente à Roma. Esta demora infindável de Cristiano para se estrear a marcar na Liga dos Campeões foi algo na altura que surpreendeu todo o mundo do futebol. Cristiano Ronaldo era um jovem muito prometedor que já se afirmava como um dos melhores jogadores do Mundo.

Onze anos depois, Cristiano Ronaldo soma já 119 golos na Liga dos Campeões, dos quais 39 são a partir dos jogos dos quartos-de-final.

No futebol existem, inexplicavelmente, certos dogmas que cada vez mais são postos em causa. Um dos maiores será, seguramente, que a idade é preponderante no rendimento de um jogador. Muitas vezes diz-se que a partir dos 30 anos um jogador já é velho e o seu auge já passou. Outras vezes, não se compreende como certos clubes não apostam mais nos jogadores jovens, alguns em idade júnior.

Estas ideias preconcebidas estão longe de estar certas e o maior exemplo é o rendimento exibido pelos maiores goleadores do futebol internacional de clubes. Casos de Di Stéfano, avançado argentino – melhor goleador da antiga Taça dos Campeões Europeus – e Cristiano Ronaldo, máximo goleador da Liga dos Campeões.

Quem era o argentino Di Stéfano

Di Stéfano começou, infelizmente para o futebol, apenas a disputar competições europeias com 30 anos. A Taça dos Campeões Europeus apenas teve o seu início em 1956. Até ao término da sua carreira o lendário jogador argentino apontou 48 golos na prova, 32 dos quais a partir dos quartos-de-final. Nessa fase, dos 30 aos 37 anos o histórico jogador merengue conseguiu por mais de 30 vezes balançar as redes adversárias. Das 20 eliminatórias disputadas, apenas numa ficou em branco, precisamente a final de 1962 com o Benfica.

Nessa final, aos 36 anos, Di Stéfano foi dos melhores jogadores em campo. O Real Madrid era na altura uma equipa em clara queda de rendimento. Uma defesa e um meio-campo sem a intensidade de outrora, mas um ataque que continuava demolidor. Gento era o melhor extremo esquerdo do Mundo, Puskas tinha uma finalização e um sentido de baliza a roçar a perfeição e Di Stéfano era o maestro da equipa, o homem do último passe.

Não tinha a intensidade de outros tempos, mas tudo o que fazia fazia-o bem. Por isso foi fácil perceber como o Real Madrid conseguiu marcar 3 golos ao Benfica e acabou por sofrer 5! Porque a inteligência táctica cresce com a idade e a qualidade técnica é algo que não se perde.

A “transformação” de Cristiano Ronaldo

Já em 1962 a experiência internacional era fundamental para um rendimento desportivo de topo. Hoje, em 2018, 56 anos depois, o futebol mudou drasticamente, como todos sabemos, mas os princípios basilares mantêm-se. E a constante evolução de Cristiano Ronaldo é o mais perfeito exemplo desta realidade.

Cristiano Ronaldo foi dos 16 anos 22 anos um jogador habilidoso, fortíssimo no 1×1, que fazia dribles e fintas desconcertantes, que fazia delirar o público e dava um espectáculo futebolístico assinalável. Era um extremo puro, irreverente que ao longo desses 6 anos era mais influente pelas suas assistências do que propriamente pelos golos. Estava longe de ter um faro goleador assinalável e ser a principal ameaça de golos da sua equipa.

A partir de 2007 começa cada vez mais a flectir para a zona central e a assumir-se como uma referência de golo. E ao longos dos últimos 11 anos tem evoluído constantemente como todos nós podemos verificar.

A evolução de Cristiano Ronaldo é o melhor exemplo de como as qualidades futebolísticas de um goleador vão crescendo ao longo do tempo, desde que este mantenha sempre a sua ambição de querer melhorar. Porque o que se perde em intensidade e quilómetros percorridos vai-se ganhando em experiência, gestão emocional e inteligência táctica.

Cristiano Ronaldo não foi diagnosticado prematuramente como um goleador e essa é a principal causa da sua evolução. Assim nos seus primeiros 5 anos de sénior desenvolveu características técnicas e tácticas essenciais de extremo.

Depois com um maior nível de conhecimento do jogo foi adquirindo características de avançado e de goleador. E foi essa mescla de posições diferentes que lhe permitiu ter a completude com que hoje brilha nos principais palcos do futebol mundial.

Foi esta diversidade de recursos, adquiridos no momento e na maturação certa, que lhe permitem mais do que fazer golos cada vez mais bonitos, fazer golos em cada vez mais contextos e situações tácticas diferentes, respondendo com cada vez maior eficácia às necessidades da equipa perante qualquer estratégia defensiva que o adversário possa causar.

É por isso natural, que este ano, tenha tido um começo de época turbulento e longe das balizas adversários. Aos 33 anos, sem a capacidade física de outrora, não consegue manter picos de rendimento por muito tempo. Tem de dosear o esforço e fazer um trabalho específico para a ponta final da época.

É por isso natural, que hoje esteja longe de marcar 48 golos na Liga Espanhola, mas está cada vez mais perto de bater o recorde de 17 golos na Liga dos Campeões.

Di Stefano marcou 32 golos nos jogos a partir dos quartos de final e acabou a carreira internacional aos 37 anos.

Cristiano Ronaldo desde os 30 anos (para poder comparar com Di Stéfano) soma ainda 17 golos.

Os tempos e o futebol são diferente, mas a vontade de superação e a inteligência dos protagonistas é idêntica. Cristiano Ronaldo está ainda em evolução, a idade é conhecimento. Por isso fica a pergunta, terá ainda Cristiano Ronaldo não chegado ao seu auge?

Comentários
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João Perfeito
Tenho 27 anos e sou verdadeiramente apaixonado pelo futebol desde os 9 anos. O célebre Portugal-Inglaterra do Euro 2000 permitiu-me apaixonar-me por este jogo que alia emoção, inteligência, espírito colectivo,arte, incerteza e superação. Desde aí nunca deixei de acompanhar com profundidade o futebol nacional e internacional. Licenciei-me em Ciências da comunicação, fui colaborador de conteúdos do Museu do Sport Lisboa e Benfica e colaborador estatístico da I Gala Quinas de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol em 2015. E neste contexto a minha paixão pela escrita e pela estatística intersecta-se com o futebol. Aqui no Linha de Passe pretendo escrever sobre a actualidade e história deste desporto fantástico sempre recorrendo aos dados que considerar mais oportunos para poder transmitir ao máximo a minha visão sobre a beleza do futebol.