Assimetrias nos Direitos Televisivos do Futebol Europeu
Assimetrias nos Direitos Televisivos do Futebol Europeu

O tema dos direitos televisivos têm suscitado muita discussão na atualidade. Muitas vezes este tema é discutido, mas quase nunca temos acesso à totalidade dos dados informativos sobre quantos os clubes na Europa recebem.

Como tal, decidimos fazer um estudo sobre os direitos televisivos recebidos e assistências nos estádios em 2016/2017 pelas equipas das principais 4 Ligas da Europa: Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra e Portugal.

Direitos Televisivos recebidos em Portugal, Espanha, Alemanha, França e Inglaterra em 2016/2017 (absoluto e na proporção com Espetadores)

Gráfico relativo aos direitos televisivos por clube nas principais ligas europeias
Gráfico relativo aos direitos televisivos por clube nas principais ligas europeias

Neste gráfico, podemos constatar que a equipa que recebe menos dinheiro em Inglaterra (Sunderland) recebe 113 milhões de euros. Um valor que é quase 3 vezes superior ao Benfica, clube que em Portugal recebe mais. A 4ª equipa em Espanha a receber mais, o Sevilla (109 milhões de euros), fica também atrás do Sunderland.

Em Itália, apenas a Juventus (122 milhões) recebe mais que o Sunderland. Por sua vez, na Alemanha, o Bayern Munique recebe menos 38 milhões de euros que o Sunderland. Interessante é perceber que o Granada (equipa que recebe menos em Espanha) recebe 63 milhões, quase metade que o seu congénere inglês. Por sua vez, o Carpi, em Itália, recebe menos de metade desse valor (25 milhões), tal como o Leipzig, na Alemanha (23 milhões).

Braga e Guimarães, empatados em 4º lugar no que a receitas televisivas em Portugal diz respeito (com 9 milhões), recebem menos de metade do último alemão e italiano.

O 6º clube em Itália – a Fiorentina – recebe mais 30 milhões que o 6º na Alemanha – o Wolfsburgo.

Todos estes números explicam a enorme disparidade entre cada um destes campeonatos, bem como o fosso enormíssimo perante Portugal.

Gráfico relativo aos direitos televisivos por assistências nas principais ligas europeias
Gráfico relativo aos direitos televisivos por assistências nas principais ligas europeias

Neste gráfico, relacionamos os milhões que cada clube recebe com o número de espetadores que conseguiu levar ao estádio. Antes da internacionalização dos direitos televisivos, o números de pessoas que viam os jogos de um clube no estádio podia ser mais ou menos proporcional ao número de pessoas que viam na televisão. Quanto mais adeptos um clube tinha, mais bilhetes e mais visualizações obtinha.

O que este gráfico pretende demonstrar é que as receitas não funcionam em função de um mercado nacional (visualizações e bilheteira). Se assim fosse, o Watford, que leva 15 vezes mais pessoas ao Estádio que o Arouca, receberia 15 vezes mais. Ora, em Inglaterra, quem vê os jogos do Watford na televisão são quase exclusivamente os seus adeptos, porque os outros fãs todas as semanas têm jogos mais apelativos para ver. Mas o que acontece é que, na prática, o Watford vai receber 60 vezes mais que o Arouca. Deste modo, a desigualdade já existente aumenta ainda mais.

Receitas direitos televisivos por Ligas; Relação Direitos com Espetadores; Relação da População no Estádio com Espetadores

Gráfico relativo à média de receitas de direitos televisivos por espetadores nos estádios.
Gráfico que indica as receitas globais das principais ligas e Portugal. Fizemos a relação entre a média de receitas de direitos por espetadores nos estádios.

Neste gráfico, os valores a azul (em milhões de euros) representam os direitos televisivos em absoluto. Aqui, podemos comparar esses valores com a relação entre os milhões de euros ganhos nos direitos televisivos e os milhares de média de espetadores (a cor de laranja).

Gráfico representativo da média de espetadores em relação à população das respetivas cidades
Gráfico representativo da média de espetadores em relação à população das respetivas cidades

Aqui, apresentamos a média de espetadores no rácio com a população das respetivas cidades. Nestes dois últimos pontos, excluímos os 3 grandes de Portugal e não incluímos dados de clubes de cidades com mais de 500 000 habitantes, uma vez que em cidades tão grandes evidentemente que, proporcionalmente, vão menos pessoas ao Estádio. O Real Madrid, para ter a mesma proporção do Manchester United, teria de ter 500 000 pessoas no Estádio, um número evidentemente impossível.

Portugal/Alemanha/Espanha – as semelhanças

Na Alemanha, cerca de 12 clubes recebem menos de 3 milhões de euros em direitos internacionais. Portanto, mais de 90% da receita provém do mercado nacional.

Por aqui percebemos que se 2/3 das equipas na Alemanha não conseguem vender o seu produto por mais de 3 milhões de euros, não é evidentemente Portugal que o vai fazer.

Esta ausência de internacionalização dos direitos explica a equidade proporcional entre os dois países. Na Alemanha, em média, cada clube recebe 1065 euros por cada espetador (agora já englobando todos os clubes) no seu Estádio. Em Portugal, o valor é de 881 (já juntando os 3 grandes).

Se os alemães colocam 3,5 vezes mais pessoas nos Estádios que Portugal, recebem 4,2 vezes mais.

Por aqui se percebe onde está o problema dos clubes portugueses.

Ao contrário da Alemanha, em que em média 1 em cada 6,4 habitantes da cidade de um clube da 1ª Divisão vai ao futebol, em Portugal, esse dado é de apenas 1 em cada 15,4.

Isto significa que o limite do nosso potencial é dobrar as assistências nos estádios.

Se cada um dos 15 clubes da 1ª Liga dobrar o seu número de adeptos no Estádio e na televisão, proporcionalmente, as receitas vão duplicar. O que tem que ser feito é criar medidas para que isto aconteça e não pensar que é através da competitividade que os estádios vão ter mais espetadores.

Porque a Liga Alemã é muito pior que a Espanhola e, proporcionalmente, os alemães vão 2 vezes mais ao estádio que os espanhóis.

A semelhança no rácio entre Portugal (15,4) e Espanha (13,1) explica que não é a qualidade do futebol que leva pessoas ao Estádio. O que leva são os hábitos culturais das pessoas de apoiarem ou não o clube da sua cidade. Por isso, existe uma semelhança entre os países da Península Ibérica, com séculos de história em comum, e uma diferença abissal destes para com Inglaterra e Alemanha.

A liga alemã regista uma das maiores médias de assistência nos estádios
A liga alemã regista uma das maiores médias de assistência nos estádios

Aumentar a competitividade da Liga Portuguesa? Como?

Como já referi, as receitas dos clubes portugueses são de cerca de 166 milhões de euros. Para termos uma proporção igual entre o que recebe mais e o que recebe menos comparando com Alemanha e Itália, o Arouca teria que receber 3 vezes menos que o Benfica.

Com o atual montante, isto significa que os 3 grandes teriam que receber cada um 20 milhões de euros, Braga e Guimarães 9 milhões de euros e os restantes clubes 7 milhões de euros.

Neste contexto, cada clube receberia mais 4 milhões de euros. Como sabemos, esse valor é completamente insignificante para conseguir recrutar futebolistas de qualidade na Turquia, Rússia ou Ucrânia. Quanto muito, viriam para o campeonato português mais jogadores da liga grega, suíça, romena ou então mais sul-americanos que jogam no respetivo continente.

A juntar a isto, Benfica, Sporting e FC Porto perderiam cerca de metade do valor atual que têm. E esse valor nunca poderia ser recuperado na Liga dos Campeões, porque o Real Madrid não recebe mais de 26 milhões de euros por direitos na liga milionária.

A qualidade superior das restantes 15 equipas ia aumentar, mas os jogadores contratados nunca iam proporcionar índices de competitividade suficientes para os 3 grandes, já que nenhum deles tinha lugar sequer nas piores equipas das 10 Ligas mais valiosas da Europa.

A Solução…

A solução passa simplesmente por cada clube conseguir dobrar o número de apoiantes. Se não se aumentar o volume de negócio (166 milhões) para (300 milhões), jamais será possível trazer mais qualidade à Liga Portuguesa.

Mas mesmo que os clubes aumentem as receitas drasticamente, o fosso para os principais campeonatos europeus é tão grande que jamais poderemos ter as melhores equipas portuguesas a lutar de igual para igual com as melhores equipas da Liga dos Campeões. Quanto muito, podemos ter uma Liga superior, mas que nunca poderá possibilitar os resultados das décadas de 60 e 80.

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