Premier League 2018
Fonte: Premier League

O futebol em Inglaterra como todos sabemos, sempre foi uma referência. A Inglaterra criou as regras do jogo em 1863 e até hoje este continua a ser o desporto mais amado pelos ingleses. Tal facto proporcionou que o futebol inglês sempre estivesse nos lugares cimeiros, quer ao nível de clubes quer nas seleções nacionais.

A Inglaterra é um país com uma economia forte e com um grande peso político no mundo. Tem 65 milhões de pessoas, enorme tradição de prática desportiva e uma imensa paixão pelo futebol.

Estes cinco fatores parecem ser suficientes para que este país fosse não apenas uma referência mundial, mas também que conseguisse ter por diversas vezes a hegemonia do futebol mundial.

Inglaterra: Sucesso desportivo fica aquém do seu potencial

Steve McManaman - Real Madrid
Steve McManaman, ao serviço do Real Madrid, um dos poucos jogadores ingleses que teve sucesso na Liga dos Campeões jogando num clube não inglês.

Contudo, a história, sobretudo a mais recentemente, prova que o sucesso desportivo do futebol inglês (clubes/seleção) fica bastante aquém do seu potencial. Analisando alguns dados estatísticos podemos constatar esta realidade. Vejamos as presenças de Inglaterra em Europeus e Mundiais de Futebol nos últimos 50 anos (após o Euro 1968).

Em 50 anos apenas por 2 vezes a Inglaterra conseguiu chegar às meias-finais de uma fase final de seleções. Em 24 possibilidades, apenas em menos de 10% os ingleses chegaram à fase decisiva de uma fase final. Um número manifestamente escasso para um país com tantos praticantes de futebol, tanto dinheiro para investir e com uma Liga Nacional que há muitos anos é de longe a mais competitiva do Mundo.

Outro dado interessante é perceber quantos treinadores ingleses das principais equipas inglesas (Manchester United, Arsenal, Chelsea, Liverpool) conseguiram chegar aos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões.

O Chelsea por exemplo nunca chegou aos quartos-de-final com um treinador inglês. O Manchester United também nunca alcançou tal feito. O Liverpool há mais de 30 anos que também não. E o Arsenal apenas na temporada de 1971/1972.

Em 20 de Fevereiro de 1992 foi criada a Premier League, num modelo que permitisse aumentar as receitas do campeonato, para trazer um maior espetáculo desportivo e consequente uma maior competitividade entre os clubes.

A Premier League tem sido a nível económico um sucesso em todos os níveis. Basta ver que desde 2012/2013 a 2016/2017 apenas quatro vezes equipas inglesas tiveram nos quartos-de-final da Liga dos Campeões. No entanto, os direitos televisivos na época 2016/2017 valeram mais de 4 mil milhões de euros aos emblemas britânicos.

O insucesso desportivo, 4 presenças em 5 anos, não foi de maneira nenhuma refletido no sucesso económico das equipas inglesas.

Outro dado interessante é perceber que jogadores ingleses chegaram às meias-finais da TCE/Liga dos Campeões jogando fora do campeonato inglês. Em mais de 60 anos, apenas Cunningham em 1979/1980 no Real Madrid, Kevin Keagan no mesmo ano no Hamburgo e Steve Mcmanan no Real Madrid de 1999/2000 a 2003/2004.

Apenas um jogador em mais de 60 anos, fora de Inglaterra, brilhou por mais de uma época na prova máxima do futebol mundial de clubes. Por tudo isto se percebe que o futebol inglês é claramente um futebol à parte.

Modelo inglês pode e deve ser repensado

Futebol inglês
Fonte: Mirror

O futebol inglês é um modelo de marketing para encontrar consumidores e não para ter sucesso desportivo.

O futebol inglês privilegia um modelo competitivo onde a emoção e a espetacularidade são mais importantes que a racionalidade e a qualidade tática das equipas de uma maneira demasiado acentuada, fazendo esquecer que o objetivo principal do futebol é simplesmente vencer jogos.

O futebol inglês está à parte da essência do futebol. Porque o futebol inglês é formulado apenas como um produto de entretenimento e isso hipoteca todo o seu sucesso desportivo.

O futebol inglês não é capaz de formar treinadores ingleses competentes que comandam as suas principais equipas, porque o objetivo é o sucesso a curto prazo. A metodologia inglesa não está interessada em saber pensar o futebol, apenas em o saber vender.

Talvez por isso não exista um planeamento na formação que possa formar jogadores com as qualidades táticas necessárias para poderem, fora do seu habitat natural, continuar a fazer história. É por isso que a emigração dos futebolistas ingleses para Espanha, Itália e Alemanha é um autêntico fracasso.

Por tudo isto, acabou por não ser totalmente surpreendente que a Inglaterra fosse eliminada pela Islândia (apenas 300 000 habitantes) no Euro 2016.

Porque a Islândia é um país que mesmo com uma população tão diminuta, cerca de 40% dos ministros praticaram Andebol federado e 4 selecionadores islandeses orientaram 4 seleções no Mundial 2017, da referida modalidade.

A Islândia é um país onde existe planificação sobre o desporto, onde se formam pessoas para pensar não apenas para brilhar.

A população, a economia e a paixão dos adeptos não é essencial para o sucesso. Mais importante que isso é criar uma estrutura competitiva forte e uma planificação minuciosa para obter resultados desportivos.

Numa altura em que o futebol é cada vez mais tático (veja-se o sucesso de equipas como Juventus e Atlético de Madrid) e existe cada vez menos espaço para jogar o futebol inglês terá cada vez mais dificuldades.

Convém não esquecer que o Liverpool, não querendo tirar mérito, chegou à final da Liga dos Campeões sem defrontar todas as equipas mais regulares dos últimos anos da prova (Atlético de Madrid / Barcelona / Real Madrid / Juventus / PSG / Bayern Munique).

O futebol inglês, com os cinco fatores que enunciámos no início do texto será sempre um sucesso. Apenas precisa de escolher o seu caminho: espetacularidade ou resultados.

Querer manter a espetacularidade e aumentar significativamente os resultados é uma utopia.

Chegar à hegemonia do futebol mundial não será difícil. Difícil é abdicar do sucesso mediático pelo sucesso desportivo, simplesmente porque não parece que verdadeiramente os ingleses estejam para isso.

Comentários
Artigo anteriorMárcio Sousa: o herói que nunca jogou na Primeira Liga
Próximo artigoPrimeira Liga 17/18: Um Olhar ao Topo e Fundo
João Perfeito
Tenho 27 anos e sou verdadeiramente apaixonado pelo futebol desde os 9 anos. O célebre Portugal-Inglaterra do Euro 2000 permitiu-me apaixonar-me por este jogo que alia emoção, inteligência, espírito colectivo,arte, incerteza e superação. Desde aí nunca deixei de acompanhar com profundidade o futebol nacional e internacional. Licenciei-me em Ciências da comunicação, fui colaborador de conteúdos do Museu do Sport Lisboa e Benfica e colaborador estatístico da I Gala Quinas de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol em 2015. E neste contexto a minha paixão pela escrita e pela estatística intersecta-se com o futebol. Aqui no Linha de Passe pretendo escrever sobre a actualidade e história deste desporto fantástico sempre recorrendo aos dados que considerar mais oportunos para poder transmitir ao máximo a minha visão sobre a beleza do futebol.