Seleção italiana de futebol

O futebol italiano vive no momento presente um dos piores períodos da sua história. A não qualificação da squadra azzurra para o Mundial da Rússia foi um escândalo que veio confirmar todo a decadência do futebol transalpino que se tem manifestado na última década.

A Itália já não se qualificava para um Mundial desde 1958. Na altura, tal aconteceu devido à primeira vitória oficial de Portugal que goleou os transalpinos por 3-0, hipotecando a qualificação dos italianos.

Mas este fracasso não é um produto isolado. Após a vitória no Mundial de 2006, a seleção italiana tem tido um rendimento nas fases finais bastante abaixo dos seus pergaminhos históricos.

De 1934 até 2010 só uma vez os italianos não estiveram entre os melhores 16 do Mundo. Mas de 2010 até 2018 nunca passaram a fase de grupos, nos dois Mundiais em que participaram. Nos Europeus os resultados recentes também não são muito positivos: uma final e duas presenças nos quartos de final não são suficientes para ficar na história.

A nível de clubes vive-se o segundo maior período de seca das formação italianas na Liga dos Campeões. Entre 1969/1970 e 1984/1985 os italianos estiveram 15 anos sem vencer a prova máxima de clubes do futebol mundial. Mais recentemente, desde o triunfo do Inter de Mourinho em 2010 os italianos não sabem o que é vencer a Liga dos Campeões.

Na Liga Europa nas últimas 19 edições não houve nenhum finalista italiano, contrastando com os 9 títulos e 5 finais alcançados entre 1972 e 1999.

Para formar grandes equipas e grandes seleções é necessário ter uma grande capacidade coletiva mas também grandes jogadores. Ninguém consegue ter sucesso numa década apenas com sacrifício e disciplina tática.

Neste contexto o primeiro problema do futebol italiano é a ausência de jogadores do meio-campo para a frente de classe mundial.

Na última década os transalpinos tiveram um dos melhores guarda-redes de todos os tempos: Buffon. Também Chiellini e Bonucci, mesmo não sendo comparáveis a nomes como Baresi, Maldini, Nesta ou Canavarro, têm demonstrado qualidade.

Num país futebolístico que já não conta com os contributos de Pirlo, Vieri, Inzaghi, Del Piero ou Totti, é urgente que surjam novas figuras que catapultem o futebol italiano para o topo. Mas não é isso que tem acontecido no passado recente.

Nas últimas edições da Liga dos Campeões, Thiago Motta, Verrati, Vasquez e Insigne têm sido dos jogadores do meio-campo para a frente em maior evidência. Thiago Motta já acabou a carreira. Vasquez tem o sonho de jogar pela Argentina e Insigne não passa de um bom jogador mas muito abaixo de Suarez, Cavani ou Lewandowski.

Com Verrati lesionado e Jorginho sendo apenas um bom jogador, era difícil perspetivar que a seleção italiana pudesse ser favorita no confronto com Portugal. Mesmo estando a seleção lusa privada de Cristiano Ronaldo, entre outros.

A Liga das Nações tinha neste contexto uma excelente oportunidade para o futebol italiano se reerguer e mostrar sinais de força.

Mas para além da ausência de soluções de topo parece que a squadra azurra não sabe rentabilizar os seus atuais melhores ativos.

Di Sciglio, Florenzi, Insigne e Bernardeschi não foram titulares perante Portugal. A seleção italiana fez alinhar no onze apenas dois jogadores que vão jogar a Liga dos Campeões: Cristante e Jorginho!

Voltando ao passado. Na década de 80 e início dos anos 90 o campeonato italiano chegou a ser considerado o melhor campeonato do Mundo. Da mesma forma, a squadra azzurra era uma das mais temíveis seleções mundiais.

O 7º título europeu do AC Milan em 2007 gerou uma euforia excessiva que permitiu ao clube entrar numa decadência financeira que até hoje não se recompôs.

O Inter de Milão atingiu o topo com o título europeu numa equipa com jogadores velhos e alguns deles nunca valorizados no futebol, mas não se soube adaptar e não mais voltou às meias-finais.

O Nápoles não é mais do que uma equipa vertiginosa, com um ataque demolidor mas com erros defensivos que não lhe permitem assumir qualquer objectivo de topo no futebol europeu.

A Roma é uma equipa lutadora, taticamente muito bem organizada, mas sem a qualidade necessária para poder repetir regularmente a epopeia da época transata.

Juventus, um óasis no futebol italiano atual

Cristiano Ronaldo - Juventus
A contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus faz sonhar os adeptos da Velha Senhora, que querem voltar a conquistar a Liga dos Campeões

O calciocaos hipotecou toda a rápida emergência europeia da Juventus pós 2006, sendo apenas em 2012/2013 que a Velha Senhora começa a mostrar alguma qualidade de jogo na Liga dos Campeões.

Desde 2014/2015 que a Juventus se tem assumido como candidata ao cetro europeu. Com um plantel recheado de qualidade e quantidade a Juventus atingiu duas finais nos últimos quatro anos e só caiu perante Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Com o apoio da Fiat, a Juventus conseguiu cada vez mais melhorar a sua capacidade financeira permitindo-lhe contratar jogadores para vencer a Champions. O clímax aconteceu com a transferência de Cristiano Ronaldo neste verão, num claro sinal que a Juventus se quer assumir como favorita ao título europeu.

Em 1966, a Itália não passou a fase de grupos do Mundial às custas da Coreia do Norte. Tal escândalo fez com que a federação italiana cancelasse a inscrição de jogadores estrangeiros no campeonato.

Na época sentia-se a necessidade crescente de apostar mais nos jogadores italianos e com esta medida Eusébio viu gorada a possibilidade de se mudar para terras transalpinas.

Cinquenta e dois anos depois a situação quase que se volta a repetir. A Itália falha a presença no Mundial 2018 e a Juventus tenciona mais uma vez contratar um português que é o no momento o melhor finalizador e jogador do Mundo.

Mas os tempos são outros. Hoje o negócio que envolve o futebol não permite este tipo de medidas, bem pelo contrário. Em cenário de crise olha-se para o dinheiro e para o investimento como sinais de resolução de problemas.

Por isso Cristiano Ronaldo chegou com toda a naturalidade a Turim.

O objetivo é o sucesso a todo o custo, não se vem jogadores italianos do meio-campo para a frente a emergir em Turim. Contrata-se estrangeiros dos melhores do Mundo e esperam-se resultados.

Nos outros conjuntos italianos, mesmo sem a capacidade financeira para atrair jogadores candidatos à Bola de Ouro a aposta é sistematicamente em estrangeiros não deixando espaço para jogadores italianos.

Por tudo isto a Juventus é um mundo à parte. Com um financiamento à parte, com um modelo à parte que não significa nenhum upgrade para as outras equipas.

É por isso natural que a squadra azzurra jogue um futebol feio, defensivo perante um Portugal desfalcado no seu meio-campo e sem Ronaldo. Se à Juventus pela consolidação do modelo tático e pelo investimento se esperam grandes resultados, ao resto do futebol italiano não se vislumbram grandes melhorias.

Ou se planificava e criam novas estruturas ou o declínio vai continuar…

Resta por isso saber se o futebol italiano tem essas necessidades de reorganização e diagnosticou os problemas ou se espera que a emergência apoteótica da Juventus faça milagres.

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João Perfeito
Tenho 27 anos e sou verdadeiramente apaixonado pelo futebol desde os 9 anos. O célebre Portugal-Inglaterra do Euro 2000 permitiu-me apaixonar-me por este jogo que alia emoção, inteligência, espírito colectivo,arte, incerteza e superação. Desde aí nunca deixei de acompanhar com profundidade o futebol nacional e internacional. Licenciei-me em Ciências da comunicação, fui colaborador de conteúdos do Museu do Sport Lisboa e Benfica e colaborador estatístico da I Gala Quinas de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol em 2015. E neste contexto a minha paixão pela escrita e pela estatística intersecta-se com o futebol. Aqui no Linha de Passe pretendo escrever sobre a actualidade e história deste desporto fantástico sempre recorrendo aos dados que considerar mais oportunos para poder transmitir ao máximo a minha visão sobre a beleza do futebol.