Uefa Nations League
Liga das Nações da UEFA

Na última semana, estreou uma nova prova de seleções. A Liga das Nações é uma competição organizada pela UEFA que vai acontecer de dois em dois anos, precisamente nos anos em que não existe nem Campeonato da Europa, nem Campeonato do Mundo.

A competição que alberga as seleções europeias está dividida em quatro divisões, de acordo com o ranking da UEFA.

Em todas as divisões, existem quatro grupos de três ou quatro equipas.

Em todas as divisões, as equipas defrontam-se em casa e fora, totalizando um máximo de seis jogos nas fases de grupos. Os primeiros classificados (à exceção da Divisão A) sobem de divisão, os últimos descem (à exceção da última divisão). Na Divisão A, os primeiros classificados disputam numa Final Four o troféu.

Estes jogos vem substituir os amigáveis de seleções que tinham lugar no mesmo período.

Esta competição vem, assim, resolver o grave problema da escassez de jogos oficiais com grande impacto competitivo das seleções nacionais em prol dos clubes.

Desde 1960, tem existido um Campeonato da Europa de quatro em quatro anos e um Campeonato do Mundo, em que as melhores seleções europeias se qualificam, também de quatro em quatro anos. Tudo isto faz com que, por exemplo, de 2013 a 2016 (em quatro anos), uma seleção pudesse realizar um máximo de 14 jogos em fases finais, sete em cada competição.

Comparando com os clubes, entendendo os oitavos de final da Liga dos Campeões como o início da fase final da prova, um clube, se chegar à final, totaliza sete jogos por ano. Em quatro anos, poderá totalizar cerca de 28 jogos.

Assim, é fácil perceber que as competições internacionais de clubes tinham, sensivelmente, o dobro dos jogos de carácter competitivo alto relativamente às seleções.

Esta escassez de jogos competitivos de alto nível que existia antes permitia, claramente, beneficiar as seleções mais fortes e, noutra medida, não poder existir uma aferição do real valor das seleções nacionais.

Vejamos casos práticos:

  • Portugal começou apenas a marcar presença regular nos Mundiais de futebol a partir de 2002. Neste contexto, desde essa data, participou em cinco Mundiais em 18 anos.

Contudo, desde 1996, chegou sempre, pelo menos, aos quartos de final do Campeonato da Europa, sendo a seleção europeia mais consistente dos últimos 20 anos.

Só que existem diferenças para lá do ponto de vista desportivo entre um Europeu e um Mundial. Num Campeonato do Mundo, é necessário ter atenção a mais detalhes “extra quatro linhas”: condições climatéricas, logística, pressão mediática, equipas de outros continentes com outras características técnicas e táticas, entre outros.

Por estes motivos, Portugal tem sempre realizado Mundiais muito piores que europeus. Porque, mesmo que excluíssemos todas as seleções não europeias dos Mundiais desde 2002, as classificações de Portugal continuariam a estar muito abaixo das classificações em Europeus.

Deste modo, sem experiência até 2002 e, desde o momento presente, jogando apenas de quatro em quatro anos, a competição não é tão visível os erros cometidos e assim a confiança diminuí.

Se num Europeu entramos para ganhar, como a Alemanha, num Mundial, tudo muda de figura.

A comunicação social alemã volta a falar da sua “manschaft” como candidata ao título, não alterando o discurso em relação ao europeu, já em Portugal pergunta-se se se pode ser candidato.

Por tudo isto a confiança e crença dos jogadores é completamente diferente e, por isso, a Croácia foi a primeira seleção europeia fora dos seis grandes (Espanha, Itália, Alemanha, Inglaterra, França e Holanda) a chegar a uma final de um Mundial desde 1962. Enquanto que, desde 1962, Checoslováquia, Dinamarca, Grécia e Portugal venceram um Europeu. Para além de a URSS ter perdido três finais e Bélgica, República Checa e Portugal uma final. Se, de 1962 até 2014, não houve finalistas europeus surpresa num Mundial, desde essa altura, em Europeus, houve dez finalistas fora dos seis grandes do futebol europeu.

Portugal no Campeonato do Mundo de 2018
Fonte: Notícias ao Minuto
  • A Argentina, em 2018, foi rotulada por muitos especialistas como candidata ao título mundial apenas pelo seu historial.

A Argentina, em 2018, teve como titulares jogadores como Tagliafico, Meza, Enzo Pérez, sem qualquer ritmo competitivo em clubes condizentes para ser candidato a um título mundial. Para não falar de outros jogadores que jogam em grandes campeonatos, mas que nunca se afirmaram na Liga dos Campeões: Otamendi, Mercado ou Rojo. E ainda Mascherano em fase descendente de carreira e sem nenhum guarda-redes minimamente credível que se possa dizer que está entre os 20 melhores do Mundo.

Portugal foi campeão europeu com escassos jogadores de experiência de Liga dos Campeões. Mas para isso é preciso um colectivo forte e ter uma consistência defensiva que impressiona.

Sendo a Argentina taticamente das piores equipas a defender no Mundial, no futebol atual, onde isso cada vez mais é exigível, o insucesso estava à vista de todos.

  • O Irão, em 2014, perdeu com a Argentina por 1-0 num golo de Messi aos 89 minutos. Em 2018, perdeu com a Espanha por um golo anedótico e empatou com Portugal e esteve perto de ganhar o jogo. Em ambas as participações, a seleção asiática deixou boa imagem e orgulhou o seu povo, mas nunca passou a fase de grupos. E porquê? Principalmente, porque todos os seus jogadores não tem experiência competitiva de alto nível. Nenhum jogador tem experiência regular de nível alto na Liga dos Campeões e, dos jogadores titulares em 2014, apenas Ehsan Hajsafi repetiu a titularidade em 2018.

Ou seja, qualquer jogador do Irão – à excecção de Hajsafi – fez, no máximo, três jogos de nível alto, enquanto grande parte dos argentinos faz, pelo menos, 30.

Os jogadores do Irão são testados apenas de quatro em quatro anos e, até lá, aparecem outros jogadores novos e o ciclo volta a iniciar-se. O Irão anda quatro anos a jogar jogos oficiais na Ásia (nível baixo) e a fazer alguns amigáveis com equipas europeias.

O ideal seria criar uma Liga das Nações Mundial que permitia às equipas menos fortes jogar com maior competitividade, como, aliás, sugeriu a federação mexicana, outro país em que a ausência de competitividade da sua seleção não lhe permite mais do que sete presenças consecutivas nos Oitavos de Final desde 1994.

Não sendo possível criar essa Liga das Nações Mundial, a Liga das Nações Europeia vem, indubitavelmente, dar um maior ritmo competitivo às seleções europeias.

A Bélgica é uma das equipas mais completas e com maior talento do Mundo, mas que não tem experiência ao nível de seleções. Mas veja-se que os jogadores belgas entraram psicologicamente muito mais fortes perante uma Alemanha, França ou Espanha do que jogando fases de qualificação tranquilas e Mundiais e Europeus de quatro em quatro anos.

Em suma, todos ficamos a ganhar com esta competição, pois ela permitirá um futebol mais equitativo, emocionante para os seus adeptos e com mais momentos de excelência em termos de qualidade de jogo.

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