Luka Modric - The Best

Segunda-feira fez-se história no futebol Mundial. Luka Modric venceu o prémio The Best e tornou-se o melhor jogador do Mundo pondo fim à hegemonia de Cristiano Ronaldo e Messi, que tinham dividido o troféu nos últimos dez anos e em nove delas ocuparam as duas primeiras posições.

Luka Modric começou a brilhar na época 2007/2008 no Dínamo de Zagreb, chegou ao Euro 2008 e foi uma das grandes revelações do torneio, mostrando que o olimpo do futebol era o seu destino.

Antes do Europeu já tinha contratado assinado com o Tottenham e foi sem surpresa um das grandes referência da Premier League de 2008/2009 a 2011/2012.

Com Modric os jogos eram diferentes. A qualidade técnica que imprimia em cada jogada, a velocidade de pensamento e de execução, aliadas a uma resistência física fortíssima faziam deste jogador uma referência do Tottenham. O médio croata necessitava de voos mais altos para poder dar o perfume que os mais altos palcos do futebol europeu tanto ansiavam.

A decisiva chegada de Modric a Madrid

No Euro 2012 o jogador croata volta a fazer grandes exibições. Modric chega apenas em 2012/2013 ao Real Madrid.

A chegada de Modric ao Bernabéu foi sem sombra de dúvidas um dos principais fatores para o Real passar de eterno derrotado nas meias finais da Liga dos Campeões para tetra campeão em cinco anos.

O Real Madrid de Mourinho tinha individualmente um meio-campo de grande qualidade, antes da chega da de Modric. Xabi Alonso, Khedira e Ozil eram na altura jogadores que qualquer treinador gostava de ter. Contudo a equipa defensivamente estava longe de ser das mais sólidas da Europa. Talvez não tenha sido por acaso que Mourinho em 2010/2011 tenha colocada Pepe no meio-campo para travar Lionel Messi na meia-final da Liga dos Campeões.

O Real Madrid necessitava de um 6 fortíssimo no posicionamento e de um 8 que completasse os seus movimentos e soubesse recuperar bolas e fazer a transição atacante de forma estonteante.

O Real Madrid não tinha um 6 de referência, jogava com o duplo pivot Xabi Alonso-Khedira e Ozil era um vagabundo que percorria diversas zonas do campo abrilhantando cada jogada seja com um passe ou com progressões e acelerações do ritmo de jogo.

Quando Ozil sai do Bernabéu e Modric se assume como figura de proa do meio-campo merengue todo o carrossel da equipa muda de figura.

O Real Madrid começava a ser uma equipa com um meio-campo mais preenchido em zonas mais recuadas, com uma transição mais rápida, deixando as progressões com a bola mais vocacionadas quase exclusivamente para Di Maria, Bale e Cristiano Ronaldo.

Com Luka Modric o Real Madrid passou a fazer mais faltas, a travar mais ataques dos adversários, a ter mais vezes superioridade numérica no meio-campo, a fazer transições mais rápidas e com melhor qualidade, a ter uma posse de bola mais variedade e a mudar os ritmos de jogo com outra velocidade e outro critério e sobretudo a ter uma maior reação à perda de bola e a perdê-la em zonas mais adiantadas.

Foi por tudo isto essencialmente que Modric se assumiu como o médio mais completo do Mundo de 2012 até ao momento presente.

Mas Modric por exemplo sempre foi desvalorizado em prol de Sérgio Ramos, Marcelo, Di Maria e Bale.

Sempre se falou mais da sua capacidade para organizar jogo e descobrir linhas de passe e desvalorizou o que dava defensivamente à equipa, aquilo que fez a diferença entre o Real de Mourinho e o Real pós-Mourinho.

As melhores épocas de Modric no Bernabéu foram 2013/2014, 2015/2016 e 2016/2017. Nestes anos o Real teve uma intensidade defensiva e ofensiva superior às restantes equipas. A formação merengue conseguiu ser mais controladora e ter menos problemas a rondar a sua baliza.

A época 2017/2018 na Liga dos Campeões foi para quem viu os jogos a pior dos últimos anos de Luka Modric.

O jogador que agarrava a equipa ao jogo teve momentos de irregularidade que não se viram nas pretéritas duas temporadas.

O Real Madrid que era uma equipa que no Bernabéu nos jogos a eliminar quase não sofria golos viu-se surpreendido pela Juventus e pelo Bayern que apontaram 3 e 2 golos respetivamente fazendo tremer as aspirações merengues em conquistar a Champions.

Toda a equipa estava a jogar pior que em 2016/2017, mas era no motor de jogo Modric que se sentia mais a diferença, eram permitidas mais transições aos adversários e a sua percentagem de passes corretos embora altas estava a diminuir.

Na final em Kiev a sua exibição foi manifestamente menos intensa que a de Cardiff, onde foi o motor da goleada imposta à Juventus.

A inevitável comparação com a época de Cristiano Ronaldo

No Mundial 2018 apesar de ser dos melhores jogadores da prova, teve momentos defensivos em que esteve irreconhecível tendo em conta o que nos tinha apresentado nos últimos anos.

Bastava ver que todos os golos que a Croácia sofreu na fase a eliminar do Mundial 2018 de bola corrida foram todos pela zona central.

Contra a Rússia o espaço entre a linha média e linha defensiva não é bem coberto, Modric chega tarde o que permite Cheryshev ter espaço para fazer um grande golo de meia distância.

O golo da Inglaterrra é resultante de um mau posicionamento de Modric que permite fazer uma falta no livre em posição frontal à área.

No golo de Pogba, Modric tem uma lentíssima transição defensiva e comete o erro básico de juntar aos centrais em vez de cobrir a entrada da área, pressionando tardiamente e mal o jogador francês.

Poderá o caro leitor dizer que são erros simples e quem sem erros não existem golos. Tudo isso é verdade, mas estamos a falar do melhor jogador do mundo, aquele que teve um rendimento que mais ninguém conseguiu fazer melhor. O nível de exigência tem de ser o máximo que se pode ter.

O que vimos em 2017/2018 é que Cristiano Ronaldo foi fundamental na eliminatória com o PSG e contra a Juventus, onde esteve envolvido nos 4 golos da equipa, com uma preponderância bastante superior ao croata. Se contra o Bayern e Liverpool o rendimento de Cristiano Ronaldo foi inferior, essa diferença foi menor do que a manifestada nas duas primeiras eliminatórias.

No Mundial Cristiano Ronaldo, já recuperado totalmente de lesão, marcou 3 golos à Espanha e no outro jogo de nível alto que jogou contra o Uruguai não realizou uma exibição inferior à protagonizada por Modric contra a França.

Evidentemente que Modric fez um Mundial melhor que Ronaldo, disso não existem dúvidas. Mas convém não esquecer que Portugal apresentou um 11 sem mais nenhum jogador a jogar os quartos de final da Liga dos Campeões para além de Bernardo Silva, enquanto a Croácia tinha em Lovren, Modric, Rakitic e Mandzukic jogadores preponderantes nas suas equipas, para não falar de outros elementos como Vrsjalko, Brozovic e Perisic que se apresentaram deveras superiores aos seus opositores de posto na seleção portuguesa.

E o que se confunde é a história do futebol croata (com apenas o 3º lugar do Mundial de 1998) com a qualidade do seu conjunto, das equipas com mais jogadores de topo no futebol mundial na actualidade.

A Croácia não conseguiu ganhar nos 90 minutos à Dinamarca e à Rússia, equipas que não chegaram aos oitavos de final do Euro 2016 e que duvido que voltem a brilhar nas grandes competições.

As prestações de Modric na Liga dos Campeões e no Mundial são sem qualquer dúvida inferiores às protagonizadas por Sneijder em 2010 quando venceu a Liga dos Campeões pelo Inter e foi vice-campeão do Mundo com a Holanda.

O que é curioso é que em 2017 Modric teve apenas 5 votações para melhor jogador do mundo, 10 para o segundo lugar e 20 para o terceiro. Este ano teve 234 para melhor jogador do mundo, 112 para o segundo lugar e 64 para o terceiro lugar.

Parece no mínimo estranho como é que dos 234 que escolheram Modric como melhor do Mundo, quase ninguém no ano anterior o tinha colocado sequer nos 3 primeiros, fazendo com que o genial jogador croata ficasse apenas em 6º lugar na classificação final.

Por toda a ausência de critério nas votações para melhor jogador do mundo este prémio tem sistematicamente perdendo prestígio.

Em vez de o reconhecimento ser dado a um painel de analistas especializados que analisam cada jogo e o enquadram numa globalidade com base em critérios objectivos temos uma votação subjectiva que acontece simplesmente porque os votantes acham que aquele jogador foi melhor que outro; ou ainda mais grave quando acham que merece ganhar para um maior reconhecimento da sua carreira.

Por todos estes motivos e pela importância da marca do Real Madrid e do Barcelona se percebe porque motivo o prémio de melhor jogador do Mundo fugiu em 2003 a Nedved, em 2004 a Deco, em 2005 a Lampard, em 2010 a Sneijder e em 2013 a Ribery.

Por tudo isto, Modric que devia ter estado nos 3 primeiros mais vezes nunca viu o seu talento reconhecido e precisou da saída de Cristiano Ronaldo para ganhar um prémio que por aquilo que fez este ano efetivamente não merecia.

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