Direitos Televisivos no Futebol Europeu

Antes da existência dos direitos televisivos o futebol era muito mais competitivo e equilibrado, quer nas ligas nacionais, quer nas competições europeias.

A seleção do Brasil de 1990 era composta por 5 jogadores do campeonato português, 4 do Italiano, 1 do Holandês, Francês e Alemão. Havia ainda 10 jogadores que jogavam no Brasil.

A equipa do Brasil de 2018 é composta por 6 jogadores do campeonato inglês, 5 do Espanhol, 3 do Italiano, 3 do Francês, 2 do Ucraniano, 1 do Chinês. Existindo apenas 3 jogadores que ainda jogam no Brasil.

Quando a grande fonte de receita das equipas era a bilhética havia muito maior igualdade no acesso às estrelas do futebol brasileiro, por exemplo.

Analisamos agora a evolução das Ligas em termos de jogadores estrangeiros que foram ao Mundial de 1990 e de 2018:

Gráfico dos jogadores estrangeiros de cada campeonato que foram convocados para o Mundial
Gráfico dos jogadores estrangeiros de cada campeonato que foram convocados para o Mundial

O campeonato inglês tinha apenas 3 jogadores estrangeiros que foram ao Mundial 1990 (2 pela Suécia, 1 pela Checoslováquia). Já em 2018 tem 91!

Não utilizamos aqui os casos dos atletas escoceses e irlandeses porque, como sabemos, pela ligação política destes países à Inglaterra, os seus melhores jogadores vão sempre para o campeonato inglês.

Não se pense que esta realidade está relacionada com a exclusão das equipas inglesas das provas europeias de 1985 a 1991, porque o número de registos nos Mundiais de 1978 e 1982 é igualmente reduzido.

A Itália tinha na altura aquele que era considerado melhor campeonato do Mundo mas mesmo assim, dobrou em 2018 o número de internacionais elegíveis para o Mundial.

Já no caso da França, mesmo com o forte investimento do PSG, regista-se uma subida pouco significativa.

Por outro lado, Alemanha e Espanha praticamente quintuplicaram esse registo ao passo que Portugal apenas aumentou 2 internacionais. Recordemos que em 1990, Alemanha e Espanha tinham mais 1 internacional que Portugal.

Nota de redação: Para a realização deste estudo foram contabilizadas 14 selecções da Europa, as 4 melhores da América do Sul, as 2 melhores da Concacaf, 2 de África e 2 de Ásia presentes neste Mundial. Em resumo, um total de 24 seleções.

Exemplo do Steaua de Bucareste

Steaua Bucareste, campeão da europa em 1986
Os romenos do Steaua Bucareste venceram a Taça dos Campeões da Europa em 1986

Outro dado interessante é que o Steaua de Bucareste campeão europeu em 1986, na Liga Romena desse ano apenas fez mais 6 pontos do que em 2013/2014. E os 4 primeiros classificados desse ano apenas fizeram mais um ponto que em 2013/2014. Ou ainda que dos cerca de 30 jogadores que forma à final da TCE pelo conjunto romeno em 1986 e 1990, apenas 5 saíram para as melhores Ligas do Mundo e nunca no ano a seguir às competições europeias.

O Steaua de Bucareste foi campeão europeu, ainda sem Hagi, o que prova duas coisas.

A primeira é que quando os melhores do Mundo estavam divididos por várias equipas era possível ser campeão europeu sem ter nenhum dos 15/20 melhores jogadores do Mundo. A segunda é que com essa distribuição muito mais equilibrada a diferença entre as principais ligas europeias não era tão elevada, o que permitia a muitos países ter níveis de competitividade para tentar vencer a Taça Campeões Europeus.

Roménia & Jugoslávia em 1990 – Croácia & Bélgica 2018

No Mundial de 1990 a Roménia era uma seleção a ter em conta. O Steaua de Bucareste era um dos grandes do futebol europeu. Por isso dos 22 convocados, 21 jogavam no campeonato nacional. O futebol jugoslavo viria em 1991 a viver o seu principal feito com o título europeu do Estrela Vermelha, e teve em 1990, 12 jogadores a jogarem no campeonato nacional

Hoje em 2018, apenas 1 jogador belga joga na Bélgica e apenas 2 jogadores croatas jogam na Croácia.

Mais uma vez está provado que o aumento de qualidade das principais Ligas arruinou por completo a qualidade de todo o resto do futebol europeu.

As assimetrias entre estas 4 Ligas e as restantes é demasiado elevada, o que se traduz numa previsibilidade total de países que chegam às meias-finais, tirando toda a emoção, que durante 40 anos fez do futebol o desporto colectivo mais imprevisível do Mundo, confinando apenas às competições de seleções, onde não é possível comprar o mérito do trabalho dos outros, a única vertente emocional e pura do futebol.

Conclusões

Se é injusto o Benfica, Sporting e FC Porto receberem 14 vezes mais que o Arouca, a verdade é que metem 32 vezes mais pessoas nos estádios.

Mais injusto é vermos o Watford receber mais de 3 vezes que o Benfica, Sporting e FC Porto quando coloca 3 vezes menos pessoas no estádio.

Esta desigualdade permite que os 2 clubes mais fracos de Inglaterra tenham mais 61 milhões de euros do que todos os clubes da Liga Portuguesa juntos.

Este novo modelo de negócio tornou todas as Ligas da Europa menos competitivas, sejam dos 4 grandes ou de países como Roménia ou Sérvia.

Hoje o acesso aos quartos-de-final da Liga dos Campeões é praticamente reduzido a 4 campeonatos europeus. E às meias-finais em 20 anos só Dínamo de Kiev, FC Porto e PSV conseguiram estar por uma vez fora de Espanha, Itália, França, Alemanha e Inglaterra.

Toda esta desigualdade nasceu a partir da Lei Bosman e hipotecou a pureza do futebol.

Por isso quando o FC Porto perde 5-0 em casa com o Liverpool, e as pessoas pensam que a culpa é nossa e não deste sistema mercantilista, esquecem-se do que era o futebol nos anos 80 e início anos 90, num altura onde não existiam direitos televisivos internacionais de ligas nacionais e existiam regras para criar justiça no futebol, como a limitação de estrangeiros.

Num mercado onde tudo se compra, só os mais ricos venceram. E os pobres não terão hipóteses, façam o que fizeram. Estão e estarão sempre condenados ao insucesso e a mergulhar na história para encontrar as suas epopeias europeias.

É triste mas é a realidade e não nos parece que vai mudar.

A Lei Bosman beneficiou Real Madrid, Atlético de Madrid, Barcelona, Juventus, Milan, Inter, Bayern Munique, Dortmund, Chelsea, Manchester United, Manchester City, Liverpool, Arsenal, PSG e prejudicou todos os outros centenas de clubes de todos os campeonatos europeus.

Para o bem de 14 prejudicou-se todo o resto. Foi este o preço a pagar. Não aceitar isto é simplesmente não ver a realidade.

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