Kléber capitaneia o Estoril
Fonte: Record

Uma chegada promissora

Como é sabido pelo comum adepto de futebol, 2010/11 foi uma das temporadas de maior sucesso de sempre de um clube português. Nessa caminhada, o FC Porto conquistou Supertaça, Taça de Portugal, campeonato e Liga Europa. Só faltou mesmo a Taça da Liga para que a campanha dos Azuis e Brancos atingisse a perfeição.

Em época de estreia ao comando de um “grande”, o técnico André Villas-Boas foi visto como um dos principais obreiros do sucesso portista, o que lhe valeu um bilhete para Londres para se tornar treinador do Chelsea.

Relativamente à saída de jogadores, o clube fez os possíveis para segurar algumas das figuras de proa, tais como Hulk, Moutinho ou James Rodríguez. Na verdade, depois de tamanho sucesso alcançado a nível nacional e internacional, seria de esperar que muito mais elementos importantes tivessem rumado a outras paragens. Porém, tal não se verificou, tendo sido Rúben Micael, Guarín e Falcão os nomes mais sonantes a abandonar o Dragão no verão de 2011.

Destes, o que deixou uma herança mais pesada foi Falcão. Depois de já ter marcado 34 golos na primeira temporada ao serviço do clube, o colombiano introduziu a bola no fundo das redes por 38 ocasiões em 2010/11. 18 delas sucederam-se nos palcos da Liga Europa, incluindo o golo da final frente ao Sp. Braga, fazendo dele o melhor artilheiro da competição. Com tamanho registo, não é de espantar que se tenha transferido para o Atlético de Madrid a troco de 40 milhões de euros.

É neste contexto que Kléber chega ao FC Porto aos 21 anos. Como cartão-de-visita, o brasileiro apresentava oito golos em cada uma das duas temporadas anteriores, nas quais representara o Marítimo por empréstimo do Atlético Mineiro.

Durante a pré-época, os rumores da venda de Falcão tornavam-se mais sólidos a cada dia que passava. Nesse sentido, Kléber fez questão de mostrar a Vítor Pereira que podia ser uma alternativa válida ao colombiano, tendo acabado a fase de preparação com um total de cinco golos em seis partidas. E assim foi: o mercado de transferências encerrou, Falcão foi vendido e o FC Porto partiu para a temporada com Kléber como “9” titular, sendo o compatriota Walter a principal alternativa.

O jovem avançado deu seguimento ao bom momento de forma na pré-época na fase inicial da temporada, tendo faturado por seis vezes nas primeiras oito rondas do campeonato, incluindo um golo ao Benfica no Dragão. Na 11ª jornada, assinou o remate decisivo que deu a vitória caseira diante do Sp. Braga. Pelo meio, marcou ainda aos ucranianos do Shakhtar Donetsk na partida inaugural da fase de grupos da Liga dos Campeões.

Com este arranque de temporada, não é de estranhar que tivesse sido chamado por Mano Menezes para os particulares com a Costa Rica e o México. O selecionador brasileiro tencionava testar Kléber como alternativa aos lesionados Alexandre Pato e Leandro Damião. Porém, uma lesão no ombro esquerdo sofrida durante a partida com o Zenit impediu o ponta-de-lança de se estrear com a camisola da “canarinha”, para a qual não voltou a ser convocado.

Kléber representou o FC Porto
Fonte: Maisfutebol – IOL

A frustrante queda

A oportunidade falhada de se estrear pela seleção brasileira, um dos seus sonhos de infância, teve um grande impacto na moral de Kléber. Depois do golo marcado aos bracarenses a 27 de novembro, o avançado entrou num longo jejum que só teve fim na derradeira jornada do campeonato, com o hat-trick frente ao Rio Ave.

Desesperado por um atacante que não estivesse de relações cortadas com as balizas adversárias, Pinto da Costa trouxe para a Invicta Marc Janko no mercado de janeiro. O austríaco assumiu-se logo como titular desde o momento em que se estreou, situação que não contribuiu em nada para a confiança de Kléber.

Na época seguinte, a saída de Janko para o Trabzonspor foi colmatada com a chegada de um nome que se viria a tornar uma referência em Portugal: Jackson Martínez. Kléber foi sombra do colombiano até janeiro, período em que marcou um golo em dez partidas. Descrentes na capacidade do avançado em atingir a forma de outrora, foi dado como dispensado pela equipa técnica do clube. Assim, foi emprestado ao Palmeiras até ao término da temporada.

Em 2013/14, continuou a não ter a confiança da equipa técnica (então liderada por Paulo Fonseca), que apostou em Nabil Ghilas para alternativa ao goleador Jackson. Para além da perda de confiança, Kléber vinha sendo afetado por constantes lesões nos últimos tempos. Essa pecha impedia-o de ser uma opção regular até mesmo na equipa B dos Dragões, onde, até ao final dessa temporada, conseguiu cumprir somente uma quinzena de jogos e marcar três golos.

Seguiu-se – já em 2014/15 – o empréstimo ao Estoril. No clube da linha de Cascais, Kléber realizou a melhor época de sempre na carreira até ao momento. Livre de maleitas, o atacante obteve um registo de 12 golos em trinta jogos – três deles na Liga Europa. Dado o reencontro com a melhor forma, multiplicaram-se as vozes a pedir que fosse dada ao brasileiro uma nova oportunidade no plantel Azul e Branco.

Porém, pelo facto de já não se tratar propriamente de uma jovem promessa (caminhava então para os 26 anos) e pelo longo historial de lesões, o FC Porto optou por aproveitar a recente valorização do atleta para o vender antes do término do respetivo contrato. Assim, Kléber viu-se literalmente envolvido num negócio da China, para onde rumou a fim de representar o Beijing Guoan.

A aventura na nação asiática dificilmente poderia ter corrido pior, tendo as lesões voltado a importunar o brasileiro. No total, participou em somente onze partidas, sem lograr marcar qualquer golo. Frustrado por não conseguir explanar o seu melhor futebol e inadaptado às diferenças culturais daquele país, Kléber decide regressar a Portugal. Um ano depois de ter dito adeus, fez as malas de volta para a Amoreira.

Assinou por duas épocas e, olhando aos números, a decisão terá sido acertada. Na primeira temporada, consegue participar em 31 encontros, assinando uma dezena de golos pelos Canarinhos. Na segunda, contudo, os problemas físicos tornaram a vir ao de cima, pelo que só conseguiu dar o seu contributo em dezanove partidas e marcar em meia dúzia de ocasiões. O Estoril ressentiu-se do regime de “part-time” do seu goleador, não evitando a despromoção seis anos depois de ter subido à Primeira Liga.

Em final de contrato e com alegadas propostas de clubes do primeiro escalão, Kléber teve uma atitude louvável: aceitou ficar na Amoreira a fim de ajudar o clube a regressar à divisão de topo do futebol português.

No entanto, pese embora a qualidade inegável enquanto futebolista, a aventura do avançado na Segunda Liga não tem corrido como seria esperado. Se, por um lado, o registo de dois golos em três jogos é demonstrativo dos dotes de “matador” de Kléber, o mesmo demonstra as dificuldades que este tem tido para atingir os índices físicos ideais da alta competição. Por isso mesmo, por agora, tem à sua frente na hierarquia de pontas-de-lança dos Canarinhos Roberto, Sandro Lima e até mesmo o jovem Renat Dadashov.

E é esta a penosa realidade atual de Kléber – ser somente quarta opção numa equipa de um escalão secundário. Embora o legado deixado por Falcão fosse praticamente impossível de igualar, a verdade é que o seu começo de Dragão ao peito fazia descortinar o potencial necessário para se tornar num “9” com qualidade para brilhar nos maiores palcos. Contudo, as constantes lesões e a consequente desmotivação impediram-no de alcançar esse patamar. Aos 28 anos, irá a tempo de dar a volta por cima?

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