Miguel Cardoso, treinador do Rio Ave.

A resposta a esta pergunta leva-nos à equipa sensação da edição 17/18 da Liga NOS. Consegue adivinhar de quem falamos? As hipóteses são várias. Podíamos estar a falar do talentoso Portimonense de Nakajima, Fabrício e, até há pouco tempo, Paulinho. Ou até mesmo do Braga que cada vez é menos uma sensação para passar a ser uma confirmação, mas que não deixa de surpreender pela forma como se intromete até ao fim entre os 3 grandes do nosso futebol, com muito menos recursos. Mas não, referimo-nos a uma equipa da qual é impossível analisar sem falar primeiro do seu treinador. Falamos de Miguel Cardoso e do candidato europeu Rio Ave.

Começando pelo líder, Miguel Cardoso tem sido uma lufada de ar fresco no nosso futebol, na sua primeira experiência como técnico principal em Portugal. Aos 45 anos, depois de muitas temporadas de aprendizagem enquanto adjunto de Domingos Paciência e Paulo Fonseca, o treinador português sentiu-se finalmente preparado para iniciar uma carreira a solo nos bancos e aceitou o desafio do Rio Ave.

No início da época, seria legítimo pensar que não seria tarefa fácil substituir e dar continuidade ao bom trabalho realizado por Luís Castro. Mas a verdade é que o Rio Ave, clube com projeto reconhecidamente estável nos últimos anos, procurou dar condições para que Miguel Cardoso mostrasse aquilo que realmente tem: grande conhecimento de futebol e uma ideia de jogo bem definida.

E foi com essa segunda premissa, relativa à sua ideia de jogo, que Miguel Cardoso construiu a base deste Rio Ave 17/18, não recuando um único passo naquilo que defende. Olhando para o desenho tático, vemos um Rio Ave sólido, atuando num 4-2-3-1 que lhe tem conferido um enorme equilíbrio na zona do meio campo, por onde passa muito do seu jogo apoiado, procurando sempre a posse e o futebol de pé para pé e com uma dinâmica coletiva pouco vista num futebol português em que o “pontinho” é valioso e muitas vezes os métodos para lá chegar não são os mais ortodoxos.

Mas é impossível e injusto elogiar o jogo do Rio Ave sem tocar nos principais protagonistas: os jogadores. Começando pelo coração da equipa, o meio campo, verificamos um duplo pivô composto pelo poderio físico de Pelé e pela experiência de Tarantini que confere a tal segurança e equilíbrio, para que possa brilhar o talento individual que surge mais adiantado. Passando para essa zona mais adiantada do meio campo, encontramos Francisco Geraldes ao centro, um “menino” emprestado pelo Sporting, que espalha classe com bola nos pés pelo relvados portugueses, faltando-lhe melhorar mais aquilo que é o trabalho sem bola para dar definitivamente o salto que o seu potencial merece. Recuando ao início da temporada víamos sobre a ala aquele que era provavelmente o talento individual em maior destaque na equipa e que tardava em atingir patamares mais elevados, o que acabou por conseguir com a sua saída para o Sporting. Há males que vêm por bem e com a saída de Rúben Ribeiro da equipa, tem-se afirmado finalmente o jovem João Novais, que para além da sua reconhecida qualidade técnica, se tem destacado pela sua fortíssima longa distância na hora de alvejar a baliza contrária, característica que se faz notar ainda mais na marcação de bolas paradas. Na ala contrária, a época começou com um homem vindo do futebol colombiano, Óscar Barreto, que demonstrou desde cedo ser uma mais valia mas que ao longo da época tem vindo a perder algum fulgor, vendo neste momento a sua titularidade oscilar muito com Diego Lopes.

Na frente de ataque a referência tem o nome de Hélder Guedes, um avançado experiente de 30 anos, que não sendo um primor técnico nem um finalizador nato, é um avançado muito trabalhador e que oferece um lado combativo de que a equipa sente falta. Ainda assim, surge com números bastante interessantes nesta temporada, chegando para já à marca de 11 golos em todas as competições, a melhor da sua carreira.

Por fim, mas não menos importante, surge o setor defensivo. Na baliza, um guarda redes em que a experiência e o currículo no futebol português fala por si: Cássio. Muito forte entre os postes, talvez a maior crítica que se lhe possa fazer passa pelas lacunas no jogo com os pés. E não é uma crítica a ser desvalorizada tendo em conta aquilo que é a ideia de jogo defendida por Miguel Cardoso, em que o guarda redes se assume como primeiro homem na zona de construção. Aos 37 anos é pouco crível que Cássio melhores substancialmente nesse aspeto do seu jogo, mas com certeza é um pormenor que procura trabalhar para comprometer o menos possível a saída a jogar da sua equipa. Quanto ao quarteto defensivo, pela esquerda afigura-se Yuri Ribeiro por empréstimo do Benfica, um lateral com um pulmão inesgotável, prova disso mesmo é o golo obtido ao Boavista na Jornada 19, fechando o 2-0 final numa arrancada conseguida já aos 92 minutos em que consegue passar por meia equipa adversária em incursão até à área contrária. Saltando para o eixo defensivo, reina a estabilidade com Nélson Monte e Marcelo, este último destacando-se como patrão da defesa e merecendo alvo de cobiça de clubes de maior dimensão, falando-se numa possível transferência para o Sporting no final da época. Em último lugar, Lionn perfila-se na direita da defesa, um lateral que dá mostras de competência.

Para além destes, convém referir apenas nomes menos utilizados, mas que quando saltam do banco têm sido peças importantes para a equipas, casos de Pedro Moreira, Nuno Santos, Marcão ou o jovem talento Angolano, Gelson Dala.

E agora, olhando para resultados práticos, será possível aliar esta ideia positiva de jogo a resultados práticos? Basta fazer o exercício de olhar para a tabela e verificar o 5º lugar deste Rio Ave, para chegar à conclusão de que sim, é possível. Claro que aqui ou ali, podem surgir alguns dissabores, como aqueles que o Rio Ave viveu, principalmente no reduto dos 3 grandes do nosso futebol. Em abono da verdade, no reduto dos 3 grandes, 99% das equipas de menor dimensão sofrem esses dissabores, portanto será que valia a pena abdicar de valores e princípios em função do adversário? Miguel Cardoso é convicto em responder que não. Será que com estes valores e princípios não se está mais perto de bater o pé a adversários de maior dimensão? Miguel Cardoso acredita que sim.

Se o Rio Ave nas últimas 6 jornadas irá conseguir manter o 5º lugar e se essa posição será suficiente para alcançar o desejado objetivo europeu (5º lugar dará qualificação europeia se Porto ou Sporting ganharem a Taça de Portugal) não sabemos. Mas a marca de Miguel Cardoso e do Rio Ave na temporada 17/18 já está registada.

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Tomás Brázia
Tenho 22 anos, sou Licenciado em Ciências da Comunicação e desde cedo que me interessei por futebol. Comecei a acompanhar a modalidade por influência do meu avô, que me levava ao estádio, e a partir dessa altura sempre segui atentamente, tanto o futebol nacional como internacional. Tenho várias equipas referência, que influenciaram a minha visão do jogo ao longo do tempo, sendo a primeira de todas o Arsenal de 2004, que ficou conhecida como “Os Invencíveis”. Contudo, aquela que mais me marcou pessoalmente foi a geração Tiki Taka, que brilhou tanto no Barcelona como na Seleção Espanhola. Na minha opinião, o segredo para o futebol ser uma modalidade tão apaixonante passa pela sua simplicidade nas regras, o que o torna num jogo tão emotivo e imprevisível, sendo talvez aquele onde há espaço a maiores surpresas e onde é mais possível combater a desigualdade de forças entre duas equipas. A escrita é a forma em que me sinto mais confortável para discutir e analisar futebol, que para além dos fatores anteriores que apontei, também é a modalidade que suscita maior pluralidade de opiniões, o que acaba por enriquecer o debate em torno do jogo.