Ricardo Pessoa - Portimonense

Portimonense: Melhores momentos / Piores momentos / Futuro

Inevitável era falar do Portimonense, clube onde Ricardo Pessoa esteve durante 12 épocas, realizando um total de 426 jogos! O “eterno capitão” conta na primeira pessoa, em entrevista exclusiva ao Linha de Passe, como foi o seu percurso em Portimão.

LP: Ingressa no Portimonense em 2005/2006. Fez 426 jogos pelo clube, durante 12 épocas, tornando-se o jogador com mais jogos de sempre do clube. Le Tessier ex-jogador do Southmapton rejeitou grandes clubes europeus por amor ao clube. O Ricardo sempre se manteve fiel ao Portimonense mesmo com muitas propostas financeiramente superiores. Pode-se dizer que é um caso actual de amor à camisola. É assim que entende que o futebol deve ser vivido?
RP: Na minha perspectiva é assim que o futebol têm de ser vivido. Mas não censuro quem olha de outra maneira. Eu felizmente tive a oportunidade de poder escolher o que eu quis para a minha carreira. O que é muito importante, nem todos os jogadores têm essa possibilidade ou essa sorte. Muitas das vezes tive propostas financeiramente bastante superiores de diversos países, diversos continentes, mas no meu entender, tinha que ser fiel às minhas ideias, às ideias da minha família e por isso sempre recusei essas propostas. Continuaria sempre a fazer da mesma maneira.

LP: O que representa capitanear e ter o nome imortalizado na História do Portimonense? Está orgulhoso do legado que deixou neste clube?
RP: Obviamente que sim. Foi sempre o meu desejo terminar a carreira em Portimão. Ao longo destes 12 anos fui batendo alguns recordes de presenças em campo (mais à frente nesta entrevista). Qualquer jogador quando inicia uma carreira quer estar ligado à história de um clube. Eu tive essa oportunidade, fiz muito por isso e hoje não tenho qualquer problema em dizer, digo com muita vaidade, que estou na história deste clube. Vou ficar para sempre marcado na História do Portimonense, como o clube vai ficar marcado em mim. As pessoas podem muitas vezes não gostar que diga a verdade, mas a verdade é esta.

Homenagem dos adeptos do Portimonense a Ricardo Pessoa!
Homenagem dos adeptos do Portimonense a Ricardo Pessoa!

LP: A claque do Portimonense despediu-se disse dizendo : “Nunca haverá Outro Igual em Portimão Como o nosso Eterno Capitão”. O que é que a massa associativa do Portimonense representa para si?
RP: Representa tudo. Porque ao longo destes anos sempre tiveram um comportamento exemplar para comigo. Uma palavra amiga, uma palavra de apoio, seja nos bons ou maus momentos. E estar no último jogo e ver essa frase é um motivo de orgulho muito grande, como lhe disse na última pergunta que me fez. Eu acho que existem poucas palavras para definir quando se recebe uma traja com tanto significado.

LP: É algo que é difícil de exprimir. Que se sente?
RP: Exatamente. É uma questão de agradecer e ter orgulho. Se nunca tivesse sio o jogador, o profissional e o homem que fui muito provavelmente essa traja nunca viria a aparecer.

LP: Na temporada 2013/2014 regressou ao Portimonense, disse que foram menos de 5 minutos ao telefone. Quando existe grande entendimento os acordos são fáceis?
RP: Foram 5 minutos e a questão ficou resolvida. Acho quando as 2 partes querem é muito fácil chegar a acordo.

Melhores momentos no Portimonense

LP: Na II Liga no dia 1/5/2010 faz um golo frente ao Varzim último minuto na penúltima jornada e uma semana mais tarde o Portimonense bate a Oliveirense e sobe de divisão. Calculo que tenha sido o golo mais importante da sua carreira?RP: Para mim todos os golos foram importantes. Se colocarmos esse golo cronologicamente no momento. Eu lembro-me que nesse jogo o estádio estava completamente cheio, deixámo-nos empatar e se o resultado terminasse assim teríamos obrigatoriamente de vencer o último jogo. Esse penálti aparece aos 92 minutos, eu consegui concretizar. Foi uma descarga emocional muito grande para os jogadores e para o público. Depois do empate do Varzim, dizia-se que nós não queríamos subir de divisão, porque anos antes, ainda antes da minha chegada tinha existido um episódio semelhante. O clube várias vezes nas últimas jornadas poderia subir de divisão e nunca subia. Estava sempre o espectro do passado. Estava a aparecer o espectro novamente. Vamos para o último jogo apenas a precisar de um empate. É um golo importante no sentido que nos coloca perto de uma subida que não acontecia à 20 anos. Mas todos os golos que marquei foram importantes, uns com mais outros com menos importância.

LP: Na época seguinte devido a lesão o Ricardo não jogou a parte final da época, e viveu de fora a subida de divisão. No dia da subida perderam de manhã contra o Académico de Viseu e subiram durante a tarde com os resultados das outras equipas. Recordo que disse “ que não importava se o autocarro era pequeno ou grande, o mais importante era festejar” Como foi chegar a Portimão e ter um mar de gente esperado para fazer a festa?
RP: Nós nessa campanha fizemos um campeonato extraordinário. No final da primeira volta, já toda a gente dizia que iríamos subir. Era uma questão de tempo. Quando eu digo essa frase, é um pouco de ir buscar os últimos anos do Portimonense. Instabilidade directiva, as subidas e descidas na 1ª Liga, que não nos permitia consolidar na 1ª liga. Para mim era culminar o objectivos pessoais de recolocar o Portimonense na 1ª Liga com aquilo que tinha vindo a ser a vida do Portimonense nos últimos 3/4 anos. Em 2010 na 1ª subida que tive com o Portimonense quando chegamos a Portimão foi uma festa fantástica. E o ano passado voltou a acontecer isso. São aqueles momentos que vão perdurar para sempre nas nossas memórias. Que é sentir o entusiasmo das pessoas, é ver que conseguimos dar algo para as pessoas festejar. Tu sentes do outro lado um Obrigado, as pessoas agradecem pelo trabalho que nós fizemos e isso são festas fantásticas. Como a festa de campeão. Que foi uma festa ainda melhor. São momentos que toda a gente vai guardar.

Piores momentos no Portimonense

LP: Depois da subida o Portimonense volta a descer. Anos mais tarde um adepto do Portimonense recordou isso na Internet e disse: “Nunca me esquecerei como choraste naquele jogo onde vencemos o Marítimo por 1-0 e mesmo assim não evitamos a descida à II Liga. Foste o que mais sentiste esse murro no estômago.” Este foi seguramente um dos momentos mais difíceis da sua carreira. Foi difícil superar a mágoa de o clube não se conseguir manter na 1ª Divisão?
RP: Eu lembro-me perfeitamente desse jogo. Eu chorei compulsivamente. O clube há 20 anos que não estava na 1ª Liga. Fizemos um esforço tremendo, com um orçamento baixíssimo para estar na 1ª Divisão e nessa altura eu senti uma tristeza como jogador e como adepto. Nós chegamos a esse jogo com possibilidade de ficar na 1ª Liga e o Vitória de Setúbal vai jogar a Alvalade. Nós não sabemos quanto está o outro jogo. No final recebemos a informação de que o V. Setúbal tinha ganho em Alvalade o que é raríssimo. Ali foi um descargo de raiva, de tristeza, vêm ao de cima os problemas da época. O peso cai bastante em cima de nós. É como tivéssemos uma pancada e já não tínhamos reacção para nos erguer. Foi um dia com grande tristeza. É daqueles momentos menos bons que eu olho na minha carreira e eu olho para ele sempre para retirar algo de positivo.

LP: Na época 2011/2012 o Portimonense termina a época em último na II Divisão. Não desce porque o Varzim não tem condições para disputar os campeonatos profissionais. O Ricardo entretanto sai para o Moreirense. Foi para si muito difícil ter de sair de Portimão?
RP: Foi extremamente difícil. Vamos recuando no tempo. No final da última época da 1ª Liga, o presidente demite-se e volta a candidatar-se, o clube fica num vazio directivo durante muito tempo. A pré-época arranca tardíssimo, com 6 ou 7 jogadores que tinham contrato. Depois é escolhido o treinador. A época começou mal preparado. O reflexo vêm-se sentir no final da época, houve 2/3 treinadores, em Janeiro vieram 12/13 jogadores. Muita instabilidade. A equipa acaba por descer. Eu sou obrigado a sair, não é que me tenham apontado uma pistola à cabeça. O clube tinha descido para a II B e foi-me dito que não havia condições para continuar, o campeonato da IIB não era profissional. Disseram-me que poderia sair sem qualquer problema. O que acontece é que quando eu já tenho tratado tudo com o Moreirense é sabido que o Portimonense já não ia descer, porque o Varzim não se consegue inscrever na II Liga. Mas já não poderia voltar atrás com aquilo que foi a minha palavra. Foi bastante doloroso porque eu estive um ano Moreirense, gosto muito do Moreirense, foi sempre profissional mas faltava-me algo, aquilo que eu nunca senti noutro clube profissional, a paixão pelo clube.

LP: Na época 2015/2016 na penúltima jornada marca um golo frente ao Chaves que não foi suficiente para garantir a subida de divisão. Foi muito difícil não subir pela diferença de golos?
RP: Foi. Quem ganhasse esse jogo subia de divisão, o Chaves bastava-lhe empatar. Eu lembro-me de termos a infelicidade de um colega nosso ter feito um auto-golo e depois fomos atrás do prejuízo. Infelizmente conseguimos apenas o empate. Mas o pior foi na semana seguinte. Eu acho que foi um murro no estômago. Precisávamos de vencer no Varzim, e não conseguimos mais que um empate. Quando se está nestes momentos de decisão seja para subir, para ser campeão, para lutar pela manutenção e não se consegue os objectivos é sempre muito difícil os momentos a seguir.

LP:Este ano devido a lesão falhou quase toda a temporada. É com alguma mágoa que sente ao não ter a oportunidade de ter feito mais jogos na I Divisão na sua última época?
RP: Sim, obviamente que sinto alguma mágoa, mas não posso mudar aquilo que aconteceu. Nós nunca estamos preparados para as lesões, ou seja, nós nunca sabemos quando elas acontecem. Eu felizmente posso dizer ao longo da minha carreira que sempre tive a salvo nestas questões. Mas agora na parte final apareceram, esta foi talvez a pior e foi traumática e nada se pode fazer. Deixa mágoa, porque eu vinha jogando e quebrou-se um ciclo. Aliás, a minha carreira sempre foi pautada pela regularidade e como tal custa um bocadinho. Mas tento tirar o positivo que esta época teve. Que teve muitas cosias boas. A mágoa fica sempre, mas a gente tem que seguir em frente.

Portimonense quer continuar a festejar golos na Primeira Liga!
Portimonense quer continuar a festejar golos na Primeira Liga!

Futuro do Portimonense

LP: O Portimonense mantêm na primeira época 29 anos depois. O Ricardo afirmou recentemente que a estrutura do clube é completamente diferente da época 2010/2011. Acredita que a longo prazo o Portimonense pode repetir as épocas douradas dos anos 80 onde chegou às competições europeias?
RP: Acredito. É bom dizer que o clube hoje em dia tem infraestruturas ao nível das melhores equipas em Portugal. O trabalho da SAD neste sentido têm sido fantástico. Eu já disse isso mais que uma vez. As únicas preocupações que têm os profissionais é treinar bem e jogar bem e assim tudo se torna mais fácil. É um trabalho desta SAD que já têm 5 anos. Foram atingidos os objectivos propostos.

LP: É um trabalho que esta a ser feito de forma gradual…
RP: E acho que vai continuar desta maneira, ninguém vai querer dar dois passos maior que a perna. A equipa vai continuar a dar passos seguros, vão continuar se não for na próxima época, na outra será. Eu acho que os objectivos do Portimonense vão passar por aí. Continuar a crescer de forma sustentável. Porque hoje em dia o Portimonense é dos clubes mais apetecíveis do futebol português. É um clube que está a criar a nível internacional uma visibilidade muito grande. E isso é um passo não só para o Portimonense, mas para a visibilidade do nosso campeonato lá fora. O futebol português se calhar não chegava tanto ao Japão, hoje em dia se calhar tem uma visibilidade muito grande. Isso é um trabalho que a SAD tem vindo a fazer.

LP: O seu colega Nakajima esteve perto de representar o Japão no Mundial. Ficou à última da hora de fora dos convocados…
RP: Se calhar foi a maior surpresa do nosso campeonato e na minha opinião era um jogador que merecia estar. Não só por aquilo que fez, mas pela sua qualidade.

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