Ricardo Pessoa - Final de carreira
Fonte: Sul Informação

Hoje publicamos a última parte da entrevista exclusiva com Ricardo Pessoa. O final da carreira e o Estrela de Vendas Novas, foram os temas abordados.

LP: O seu ex-colega Tarantini, actualmente no Rio Ave, tem diversos estudos que apontam para o perigo do final da carreira de um jogador profissional de futebol. Com toda a sua experiência e como ex-capitão de equipa, que mensagem que transmitir aos seus colegas que ainda estão no ativo?
RP: A mensagem é que leiam o que o Tarantini já fez nessa matéria. Acho que melhor que isso dificilmente se encontrará.

LP: As pessoas não tem noção, mas por exemplo na Premier League apesar dos elevados ordenados, 2 em cada 5 jogadores após 5 anos entram em colapso financeiro…
RP: É uma questão de gestão pessoal e emotiva de cada um. Eu penso que a parte emotiva leva a que muitos jogadores neste caso tenham tantas dificuldades em ter a sua vida financeira estabilizada. Porque muitos deles enquanto eram jogadores já não tinham essa estabilidade financeira, só que não é tão visível, porque todos os meses recebiam dinheiro para “viver à grande”. Agora quando termina se não tens algo já orientado ou planeado obviamente que isso acontece mais rapidamente. O melhor conselho que dou é que vejam o que foi escrito pelo Tarantini porque está lá tudo. E depois enquanto são jogadores programarem algo seja em que área seja..

LP: O que sentiu quando o árbitro Tiago Martins apitou para o final do jogo com o Paços de Ferreira e terminou assim a sua carreira?
RP: Se calhar 20 minutos antes de ele apitar já estava a pensar nesse momento. É um momento de vários sentimentos. Vêm-te à cabeça todo o início, se decidiste bem, quem te acompanhou ao longo de todo o percurso. Em segundos este turbilhão de emoções na tua cabeça deixa-te um pouco cair nas emoções. Quando ele apitou simplesmente pensei, acabou… E acabou da forma que gostaria.

LP: No momento que achava que deveria terminar…
RP: Pensei sozinho. Na altura transmiti aquilo que entendia junto com a minha mulher, rodeado com os meus pais. Pedi-lhes opinião. Correspondeu aquilo que era a minha visão e assim decidi. Voltando atrás, acabou tudo aquilo que eu quis fazer.

LP: Um sentimento de dever cumprido…
RP: De dever cumprido, de felicidade. De orgulho, por tudo o que fiz até ali.

LP:O que acha que vai sentir mais saudades enquanto jogador?
RP: Neste momento ainda não sinto saudades. Mas claro que vou sentir, foram quase 20 anos de profissional, mais 10 de amador. Acho que vou sentir falta de tudo. Do balneário, do treino, do convívio dos colegas, de estar em campo, de marcar um livre, enfim vou sentir falta de tudo…

LP:Após terminar a carreira, vai manter-se ligado ao futebol na estrutura do Portimonense. Certamente que toda a sua experiência é uma peça importante na consolidação do Portimonense no futebol português?
RP: Eu acho que pode ajudar. Se assim não fosse as pessoas não queriam que eu continuasse. Eu acho que cada vez mais o futebol precisa de ex-jogadores. Não gosto daquilo que se vê no futebol português. Eu acho que é importante os clubes refletirem muito sobre isso. Acho que os clubes devem buscar referências dos seus clubes, são pessoas que têm experiência que passaram muitos anos no relvado, que lidaram com todas as partes interessantes do futebol. Eu penso que tenho isso para dar. E vou dâ-lo ao meu clube. E o clube pensa que eu sou parte importante no melhoramento do Portimonense e assim vai ser.

LP: Quais foram os seus colegas que mais lhe marcaram?
RP: Essa é daquelas perguntas que parecem fáceis mas são muito difíceis. Há tantos que me marcaram. Mas desde o início da minha carreira, o Hélio, o Sandro, o Paulo Ferreira, o Nélson Veiga. É complicado apontar nomes porque podemos esquecer-nos de alguém. O Carlos Henriques, guarda-redes do Portimonense, é um dos meus melhores amigos, é um amigo para a vida. O Pires, o Xerife que jogou comigo e hoje em dia está na equipa do Portimonense. Ivo Nicolau, Rubén, Zambujo. De facto é ingrato estar aqui e poder-me esquecer de alguém.

LP: Sente-se feliz porque olha para o passado e criou muitos laços com muitos colegas…
RP: Sim é verdade. Esses primeiros que eu referi, foram pessoas que me acompanharam na transição de júnior para sénior e foram pessoas de muita importância para aquilo que eu alcancei. Porque fizeram-me ver o futebol. Ensinaram-me muita coisa. Puxaram-me para o pé deles. Foi com eles que aprendi muito.

LP: Que papel teve a sua família ao longo da sua carreira?
RP: Teve se calhar o papel mais importante. Não é fácil quando se têm mulher e filhos, essa parte conviver o que é a vida de um futebolística.

LP: As pessoas têm a ideia que a vida de um futebolista é um mar de rosas. Mas os futebolistas têm o tempo limitado comparado com outras pessoas
RP: São estágios atrás de estágios. São pré-épocas em que muitas vezes uma ou duas semanas se está ausente. Não há fins-de-semana. Muitas das vezes não há possibilidade de uma folga conciliada com o trabalho da esposa. Os filhos muitas vezes vivem com essa ausência. Eu posso dizer que quando fui para o Moreirense, o meu filho tinha 5 meses e a minha mulher tinha o trabalho e nós ficamos separados. Eles ficaram no Algarve, eu fui para o Norte. É não veres o crescimento do teu filho, é não veres o primeiro andar. Eu falhei isso. Eu acho graça quando as pessoas falam que a vida de um futebolista é fácil mas se calhar 70% ou 80% não tinham condições para pertencer a um núcleo familiar que tivesse futebolista. E digo isto com toda a minha certeza. Eles tiveram um papel fundamental no apoio, nos momentos menos bons. Se calhar o maior agradecimento vai para os meus pais. Se não têm sido os sacrifícios que eles fizeram no início da minha carreira, quando sai de Vendas Novas para Setúbal, que iam comigo todos os dias, e são quase 100 Km ir e vir à noite. Se não fossem esses sacrifícios não tinha chegado onde cheguei. O meu primeiro Obrigado vai para eles. Eles sacrificaram-se por nós. Mas hoje tiveram a sua recompensa. O que os pais querem é ver os filhos bem.

Estrela de Vendas Novas

LP: Para terminar, lançando um olhar ao Estrela de Vendas Novas. Depois de muitos anos afastados das competições nacionais ingressou nesta época no Campeonato de Portugal, acabando por descer. Como vê o ressurgimento do Estrela de Vendas Novas?
RP: Vejo com muita alegria e satisfação. Sou vendasnovense. Após a cessão do futebol sénior parece que não, mas a cidade não é a mesma coisa. Depois da reativação do presidente César Florindo e os seus pares, o treinador Paulo Mendes. A equipa fez se não me engano, 3 subidas consecutivas, desde o escalão mais baixo do distrital de Évora até aos campeonatos nacionais. Foi um trajecto fantástico. Um trabalho que esta direção e a equipa técnica, juntamente com os jogadores fizeram. O Estrela de Vendas Novas o ano passado e nos 2 anteriores era uma equipa formada só com jogadores da sua formação, o que não é fácil. Foi um trabalho realizado com eles que deu muito trabalho. Este ano a equipa fez na minha opinião um belíssimo trabalho. Com o orçamento que o clube tinha, conseguir lutar até à última jornada pela manutenção e se nós formos ver o histórico das equipas do distrito de Évora dos últimos anos, os pontos que o Estrela fez daria para a manutenção. É um trabalho fantástico. Espero que continue a ser feito esse trabalho, não sei se com as mesmas pessoas ou não. Mas que quem vier não destrua aquilo que foi feito. É fácil trabalhar em cima de vitórias, num trabalho que está consolidado. Difícil é recomeçar do zero e esse trabalho eles fizeram. Quem venha que não ponha um passo atrás. Acho que o clube cada vez mais vai tendo estruturas. As pessoas que tem estado à frente do clube e pessoas de fora adoram o clube e é isso que é muito importante.

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