Os doze troféus ganhos pelo Real Madrid em disposição no museu do clube

O sonho máximo de qualquer equipa que disputa a Liga dos Campeões e antigamente a Taça dos Clubes Campeões Europeus é inquestionavelmente erguer a “orelhuda” e ser proclamada como campeã europeia.

Chegar ao olimpo do futebol mundial (entenda-se que os melhores clubes do Mundo são europeus) a nível de clubes é considerado como o feito mais difícil que se pode alcançar.

Contudo, a história de já quase 62 anos de TCE/Liga dos Campeões mostra-nos que na maior parte das vezes ser campeão europeu não combina bem com ser campeão nacional.

Real Madrid

O Real Madrid criou a sua marca ao vencer as cinco primeiras Taças dos Clubes Campeões Europeus. Marcou 18 golos nessas 5 finais, o que espalhava o volume e qualidade de jogo atacante da equipa merengue assente essencialmente em Gento, Puskas e Di Stéfano.

Este domínio avassalador que catapultou o Real Madrid com o clube com mais títulos e sucesso europeu não foi linear a nível interno.

Mas como já expressei aqui neste artigo, a qualidade defensiva do Real Madrid ficava muito aquém do desejado. Entre 1956 e 1960 o Real Madrid sofreu 165 golos na liga Espanhola, o eterno rival Barcelona sofreu menos 10 (155). Por isso nesses 5 gloriosos anos, o Real Madrid apenas por 2 vezes foi campeão nacional tendo ficado por uma vez em 3º lugar.

Hoje mais de 60 anos depois a história, parcialmente repete-se. O Real Madrid tem o melhor meio-campo do Mundo, uma frente de ataque temível que faz muitos golos, mas têm problemas defensivos graves que fazem por vezes a equipa sofrer golos infantis.

Na Liga dos Campeões, os índices de concentração dos jogadores estão quase sempre a roçar a perfeição e por isso o Real Madrid arrisca-se a ser a equipa de futebol mais bem-sucedida do futebol moderno, com a hipótese de conquistar 4 Ligas dos Campeões em 5 anos.

A dificuldade em motivar um plantel em que todas as suas peças fundamentais já foram tricampeãs europeias é elevada em jogos de menor dificuldade. Por isso se explica as quebras abruptas de rendimento da equipa merengue. Algo que já tinha também acontecido em 2000 e 2002. Anos em que o Real Madrid foi campeão europeu e ficou-se pelo 5º e 3º lugar no campeonato.

Podemos aqui constatar um ADN merengue que não se modifica ao longo da história. Uma equipa com uma frente de ataque fortíssima, com jogadores velozes e capaz de um volume e intensidade de jogo brutal que por vezes se mescla com uma desconcentração defensiva inexplicável perante rivais francamente inferiores.

É esta concentração europeia que permite ao Real Madrid vencer, fora de casa, consecutivamente PSG, Juventus e Bayern.

Bayern Munique

O Bayern de Munique conquista a Liga dos Campeões depois de vencer o rival Dortmund por 2-1

Depois de uma década de 60 turbulenta, a partir de 1970 o conjunto bávaro assume-se como um dos grandes do futebol europeu. Numa equipa fantástica de jogadores que se sagraram tricampeões europeus e alguns deles conseguir o mesmo sucesso nas provas de selecções, sagrando-se campeões europeus em 1972 e Mundiais em 1974.

Uma equipa onde pontificavam Sepp Maier, Franz Beckenbauer, Gerd Muller e Uli Hoeneß. O Bayern Munique foi naturalmente campeão europeu de 1974 a 1976. Mas esta epopeia europeia não teve qualquer correspondência ao nível interno.

Perante adversários claramente inferiores, que defendiam muito mais, o Bayern Munique não conseguia encontrar antídoto para ser uma equipa consistente ao nível doméstico.

Num documentário da Pitch, sobre as melhores equipas de sempre do futebol mundial, os jogadores assumem que a equipa entrava nervosa e ansiosa nos jogos do campeonato nacional, não percebendo a causa de tanto insucesso.

No reverso da medalha a equipa tinha um foco brutal na Taça dos Campeões Europeus, encarando cada eliminatória como a última das suas vidas. O Bayern percebia que só vencendo a competição poderia garantir presença no ano seguinte e isso permitia a todos estes craques estar na plenitude das suas capacidades.

Parece mentira, mas foi verdade uma equipa com Sepp Maier, Franz Beckenbauer, Gerd Muller, Uli Hoeneß e desde 1975 Karl-Heinz Rummenigge ficou em 1975 no 10º lugar do campeonato alemão. Sim, caro leitor, umas das melhores equipas da história do futebol Mundial ficou em 10º no campeonato interno, que estava longe de ser dos melhores da Europa e relativamente, inferior à actualidade. Em 1976 no fecho da primeira volta a equipa está em 10º lugar e termina na 3ª posição.

AC Milan

Paolo Maldini ergue o troféu depois de ter vencido a final da Liga dos Campeões em 1994, frente ao FC Barcelona, por 4-0

Embora seja a 2ª equipa mais galardoada do futebol europeu, o AC Milan ao longo da sua história sempre foi um clube algo irregular. Houve tempos em que teve equipas que entraram para as páginas mais douradas da história do futebol e outros em que desceu de divisão e outros em que se manteve abaixo do acesso à Europa. O Milan conquistou 7 títulos europeus e desde 1956 apenas 13 Títulos nacionais.

A equipa rossoneri nas suas primeiras conquistas europeias (1963, 1969 e 1989) não foi além do 3º lugar no campeonato italiano.

A histórica equipa com o trio holandês Ruud Gulit, Van Basten e Frank Rijkaard que goleou o Real Madrid e o Steaua de Bucareste ( na altura uma das melhores equipas europeias) nunca conseguiu entre 1989 e 1990 ser campeã nacional. O perfume de umas das melhores equipas do futebol mundial não teve similar eco no cálcio.

Treze anos mais tarde a história repetiu-se. O Milan em 2003 vence a Liga dos Campeões, numa equipa defensivamente fortíssima, mas longe de ser brilhante e ter capacidade para produzir um volume de jogo atacante elevado. Em 2007, o Milan, vivendo nas conduções de bola de Kaka no contra-ataque voltou a ser campeão europeu. Uma equipa que aborrecia de ver na Série A, tal era a sua falta de ritmo e dificuldade em arranjar soluções perante adversários que se fechavam muito. Mas uma equipa com um contra-ataque letal que por exemplo goleou o Manchester United onde já pontificava Cristiano Ronaldo.

Benfica

Os jogadores do Benfica comemoram depois de conquistarem a sua primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1961

Como já aqui descrito, o Benfica foi durante a década de 1960, a equipa com melhores resultados na Taça dos Campeões Europeus.

Em 1962, já com Eusébio, o Benfica confirmou o estatuto de potência europeia de forma completamente avassaladora.

Depois de perder 3-1, em Nuremberga, na 1ª mão dos Quartos-de-Final, muitas dúvidas eram colocadas ao poderio da turma das águias. Na 2ª mão o Benfica dizimou autenticamente os campeões alemães por 6-0, num caudal de jogo fortíssimo que patenteava a qualidade ofensiva das águias. Na Meia-Final o Benfica derrotou o campeão inglês Tottenham e na final venceu o Real Madrid por 5-3, numa épica recuperação na 2ª parte, que levou a imprensa internacional da época a dizer que o Benfica respeitou o Real Madrid nos últimos minutos, trocando a bola e tirando o pé do acelerador.

Derrotando categoricamente o campeão alemão, inglês e espanhol seria de espectar que o rendimento no campeonato nacional seria excelente.

A época de 1961/1962 foi, por incrível que pareça, a pior ao longo de 20 anos do Benfica. Com apenas 14 vitórias em 26 jogos, as águias terminaram num modesto 3º lugar apertados pela CUF!

Outros casos

A Juventus nunca juntou o título nacional ao título europeu. Nem o Dream Team de Cruijff do Ajax conseguiu ser sempre campeão nacional. O Inter em 1964 perdeu o campeonato para o surpreendente Bologna. O Liverpool apenas por 2 vezes em 5 possíveis foi campeão europeu e campeão inglês. E 2 vezes ficou em 5º lugar. Quem não se lembra do Liverpool de 2005, uma equipa com uma qualidade individual tremenda, uma força mental brutal mas uma enorme oscilação de rendimento. Ou o Nottingham Forest que ficou em 2º e 5º e depois desapareceu do topo do futebol inglês e internacional. E até o FC Porto de 1987 que deixou o título nacional escapar para um Benfica que estava há 19 anos sem estar numa final da TCE!

Barcelona a única excepção

Lionel Messi e Andrés Iniesta após a final da Liga dos Campeões de 2009

O FC Barcelona foi campeão nacional nos 5 anos em que se proclamou campeão europeu. Com um futebol dominador, com elevada qualidade técnica e uma enorme posse de bola, o Barcelona foi a equipa que melhor conseguiu no futebol europeu juntar o sucesso interno com o sucesso europeu.

29 vezes que o sucesso europeu não se repete internamente

Como se pode ver na tabela abaixo, de todos os clubes que venceram a TCE/Liga dos Campeões por mais do que uma vez, apenas por 23 vezes em 52 possíveis conseguiram vencer os campeonatos dos respectivos países. Existindo até oito casos de classificações abaixo do 3.º lugar!

Prestações internas de clubes bicampeões europeus
23
12
9
2
5
0
0
0
0
10º 1

Conforme aqui descrito: a motivação, capacidade de lidar com a pressão, padrões tácticos e técnicos diferentes, e até desgaste físico, explicam como estas 2 realidades muitas vezes não coincidem.

Uma constatação que nos faz perceber essencialmente como a parte mental é fundamental na performance futebolística.

Sem a preparação mental adequada os adversários mais fracos podem-se tornar mais complicados do que rivais do mesmo nível.

O futebol é uma equação com várias variáveis, está longe de ser matemática pura. E é toda esta conjectura que explicam que Manchester City, Juventus e Barcelona tenham sido goleados e eliminados na Liga dos Campeões. Enquanto Liverpool e Real Madrid podem ficar em 3º nos campeonatos internos e têm tudo para ir à final da Liga dos Campeões!

Neste contexto fica a pergunta: Quais serão as próximas equipas no futebol europeu a patentear esta realidade?

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