Jogos Olímpicos Rio 2016

Modelo alternativo de competitividade que já existe noutros desportos

Para Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna “ mais importante que ganhar era participar”. Este princípio prevalece na opinião daqueles que vem com maus olhos a criação da Superliga Europeia que limita a participação a mais países e mais equipas na competição.

Eu penso que se Pierre de Coubertin voltasse ao mundo atual modificaria a sua frase para “mais importante que participar é poder participar podendo vencer os melhores”.

Uma competição tem mais interesse quando os mais fracos têm mais possibilidade de vencer os mais fortes. Por isso, não é a Superliga Europeia que vai aumentar a desigualdade do futebol europeu quando, desde que o Benfica eliminou o Liverpool em 2005/2006, nunca mais um clube de um país fora do top-5 do ranking da UEFA eliminou um candidato ao título na prova.

A vitória do Estrela Vermelha sobre o Liverpool foi um milagre sem qualquer consequência desportiva para o clube sérvio.

Certamente que os pais dos adolescentes do clube sérvio vibraram muito mais em 1991 quando a sua equipa venceu a TCE e a Taça Intercontinental do que os seus filhos, que apenas viram o seu clube vencer o vice-campeão europeu.

Não devemos pensar que a desigualdade termina apenas quando podemos participar, se não damos mais oportunidades aos mais fracos de poderem lutar pela vitória.

Mas como já foi explicado: https://www.linhadepasse.com/superliga-europeia-uma-inevitabilidade-do-futebol-no-seculo-xxi-parte-um/ os resultados da Liga dos Campeões são uma consequência do impacto mediático e de marketing do futebol.

Na próxima tabela, fazemos a relação entre os países europeus que recebem mais turistas e o ranking das competições europeias nos principais desportos coletivos na Europa: Futebol, Andebol, Basquetebol e Voleibol.

Relação entre os países europeus que recebem mais turistas e o ranking das competições europeias nos principais desportos coletivos na Europa
De um modo geral, a relação entre o volume de turismo e o ranking da UEFA é proporcional

Percebemos efetivamente que, dos 16 países que recebem mais turistas na Europa, 14 estão no top16 da UEFA. Percebemos também que no top10, o ranking do basquetebol tem mais semelhanças com o ranking do turismo que o ranking do andebol e voleibol.

Percebemos efetivamente que quem consegue vender melhor as suas marcas vai ter mais sucesso nos desportos mais mediáticos.

Trata-se assim de uma consequência do marketing e não do desporto.

 

Futebol/Andebol- As diferenças

No futebol, após a Lei Bosman, só o top5 do ranking da UEFA pode disputar finais da Liga dos Campeões, à excepção do FC Porto em 2004 quando venceu o Mónaco na final.

No Andebol, hoje existem mais desigualdade do que as décadas de 60,70,80 e início de anos 90. É inequívoco que cada vez mais equipas e mais países podem vencer a prova comparando com o período (1995-2014).

No Andebol, a Liga dos Campeões teve dois participantes por país a partir de 2003/2004. De 2004/2005 a 2013/2014, em 10 edições, os finalistas eram sempre ou alemães ou espanhóis. O Andebol europeu vivia uma desigualdade tremenda que punha em causa o prestígio da modalidade.

No Andebol, ao contrário do futebol, não existem direitos televisivos de Ligas Nacionais a preços de milhões e nenhum jogador ganha milhões de euros. Os mais bem pagos do mundo auferem cerca de 100 mil euros mensais.

A ausência de internacionalização de direitos, bem como o pouco impacto mediático da modalidade, fizeram com que a Liga Espanhola de Andebol depois da crise mundial de 2009 fosse perdendo prestígio. As empresas entravam em crise, não existia capital estrangeiro, os patrocínios acabavam e a melhor Liga do Mundo estava a desmoronar-se.

De todas as equipas espanholas que já disputaram uma final da Liga dos Campeões de Andebol no século XX, apenas o FC Barcelona ainda existe. Portland San António e Ciudad Real foram campeões europeus no século XXI e hoje nem sequer existem. Atlético de Madrid fechou a sessão de Andebol um ano depois de ser vice-campeão europeu.

Portanto, se a crise económica mundial prejudicou a Liga Espanhola de Andebol, foi precisamente nesse período que Cristiano Ronaldo chegou ao Bernabéu e a Liga Espanhola de Futebol cresceu exponencialmente.

O declínio da Liga Espanhola proporcionou que equipas da Polónia, Hungria, França, Macedónia e Dinamarca pudessem cada vez mais ter melhores jogadores e competir mais de igual para igual com as melhores equipas da Europa. Tudo isto a longo prazo enfraqueceu a Liga Alemã, uma espécie de Premier League do Andebol.

Gilberto Duarte representa a equipa de andebol do Barcelona
O português Gilberto Duarte representa a equipa de Andebol do Barcelona

Outro facto importante foi a criação da Liga SEHA em 2011/2012. Os clubes da antiga Juguslávia, Bielorússia, Eslováquia e Hungria (de 2015 a 2017) formaram uma Liga com as melhores equipas de cada país. Esta liga pretendia que estes clubes, que tinham campeonatos nacionais pouco competitivos, tivessem outra competitividade para poderem lutar de igual para igual com as melhores equipas alemãs e o Barcelona.

A diferença entre o antes e o pós Liga SEHA é inevitável. Se, de 2004 a 2011, os clubes macedónios não passavam a Fase de grupos da Liga dos Campeões, desde 2012 venceram a prova por uma vez, foram eliminados uma vez na meia-final, cinco nos quartos de final e uma vez nos oitavos de Final. Os clubes húngaros nos três anos que jogaram esta Liga foram a duas finais e a uma meia-final. De 2004 a 2014 e em 2018, totalizou apenas duas meias-finais. A Bielorússia conseguiu passar aos Oitavos só depois de competir nesta Liga, por três vezes.

Com esta competitividade foi possível a um país com 2 milhões de habitantes (Macedónia) pode vencer a prova quando num passado recente apenas Espanha e Alemanha a poderiam fazer.

Neste contexto, as equipas da ex-Juguslávia participam apenas no campeonato do seu país numa fase final, jogando sensivelmente dez jogos. Na Liga SEHA, jogam cerca de 20 e mais dez (no mínimo) na Liga dos Campeões. Portanto em 40 jogos, tem cerca de 30 jogos (no mínimo) a um elevado nível de competitividade.

No futebol, as equipas do campeonato português, russo, turco, russo jogam no mínimo 30 jogos no campeonato nacional e em média oito na Liga dos Campeões. Se no Andebol os jogos internacionais são 75% da época, no futebol são apenas 25%. Por aqui se explica a diferença de resultados do futebol e do andebol.

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