Superliga Europeia - Análise - Parte II

Após o anúncio das 16 equipas que pretendem formar a Superliga Europeia, a opinião pública nacional revelou alguma surpresa pelo fato de nenhuma equipa portuguesa estar presente na prova.

Para explicar este fenómeno é necessário entender a história e perceber como o futebol português não se soube valorizar no plano internacional. Como consequência, as instituições e marcas internacionais sempre nos desrespeitaram face ao nosso valor.

1.º – Portugal organizou apenas duas finais da Taça dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões

A disputa da final da Liga dos Campeões no Estádio da Luz em Maio de 2014 proporcionou a muitos dirigentes nacionais um motivo de orgulho.

Nesta primeira tabela analisamos a relação entre a quantidade de vezes que cada país europeu recebeu uma final e a sua performance desportiva na TCE/LC. A performance desportiva foi estabelecida através de um critério subjetivo. Atribuir 3 pontos a cada clube que venceu a LC, 2 ao finalista, 1 ao semifinalista, 0,5 nos quartos de final e 0,25 nos oitavos de final.

PosiçãoPaísesFinais ChampionsPontos
1Espanha8115,75
2Itália993,25
3Inglaterra890,25
4Alemanha881,25
5Portugal239,25
6França537,75
7Holanda437
8Escócia320,25
9Bélgica415,75
10Sérvia113,75
11Roménia012,25
12Grécia310,25
13Áustria410
14República Checa010
15Ucrânia19,75
16Hungria09
17Suiça18,75
18Suécia08,75
19Turquia27,75
20Bulgária07,25
21Polónia07
22Rússia16,5
23País de Gales0

Neste ranking que contêm todas as prestações desde 1955/1956, Portugal surge classificado no 5.º lugar, só superado pelos 4 Grandes Históricos do futebol europeu.

Portugal organizou em 2004 aquele que ainda hoje é considerado o melhor europeu de sempre de seleções, para além de ser o 4.º país mais seguro do Mundo e o 3.º da Europa.

Devido ao seu poder mediático, pode-se compreender que Itália, Espanha, Alemanha e Inglaterra tenham organizado a final mais de 4 vezes. No entanto, é um pouco incompreensível que países como França e Holanda, com um passado inferior ao nosso a nível futebolístico, tenham organizado a final 5 e 4 vezes, respetivamente.

PaísesPosição no Ranking da UEFARanking do número de finais organizadas
Espanha12
Itália21
Inglaterra32
Alemanha42
Portugal511
França65
Holanda76
Escócia89
Bélgica96
Sérvia1013
Roménia11
Grécia129
República Checa13
Áustria146
Ucrânia1513
Hungria16
Suécia17
Suiça1813
Turquia1911
Bulgária20
Polónia21
Rússia2213
País de Gales2313

Mais escandaloso é saber que países como BélgicaÁustria têm o dobro das nossas finais. Até mesmo a Escócia tem mais finais organizadas que Portugal.

Basta ver que nos dois rankings os 8 primeiros são sempre os mesmos países à exceção de Portugal.

Por tudo isto seria de esperar que o Estádio da Luz fosse nomeado para receber a final da Liga dos Campeões em 2020, mas a preferência da UEFA recaiu em Istambul.

2.º – Adeptos portugueses fora do top-40 de melhores adeptos do Mundo

É comum em Portugal a opinião pública valorizar os adeptos estrangeiros pelo apoio que dão à sua equipa. Consideram também que em Portugal os adeptos nacionais estão mais preocupados em guerras com os rivais e em criar problemas fora do campo.

No dia 14 de novembro de 2018, a MARCA, um dos jornais mais mediáticos internacionalmente, fez uma pré-seleção dos 40 clubes com os melhores adeptos do Mundo e colocou-os à votação dos leitores. Nessa escolha os clubes portugueses ficaram de fora.

Quando se analisa a qualidade dos adeptos deve-se levar em linha de conta diversos fatores.

Alguns dos mais importantes poderiam ser:

  • Lealdade e apoio à equipa independentemente do resultado desportivo
  • Paixão pelo clube
  • Respeito pelos adeptos adversários não fazendo desacatos
  • Capacidade de integração com adeptos rivais.

Mas o que se passa é que os critérios estão muito longe de serem estes.

A lealdade e apoio à equipa é vulgarmente substituída pela quantidade de adeptos que os clubes têm, pelo barulho que fazem e pela originalidade de coreografias que apresentam.

Por isso é fácil perceber como neste ranking figuram dezenas de clubes sul-americanos, turcos e gregos e os principais clubes da Liga dos Campeões.

Se olharmos para um passado recente, percebemos como os adeptos do FC Porto fizeram uma grande festa na 2.ª mão em Liverpool, mesmo depois de terem perdido a 1.ª mão por 5-0.

Os adeptos do Arsenal ficaram encantados com os adeptos do Sporting.

E na época passada em Old Traford só se ouviam os adeptos do Benfica, mesmo depois de 0 pontos à 4.ª jornada. Cada vez que uma equipa portuguesa viaja para Inglaterra ou outros destinos, os seus poucos adeptos normalmente ouvem-se mais que os outros.

Podem não ser muitos, não gritar tanto como os turcos ou gregos e não fazer as coreografias dos adeptos do Dortmund. Mas estão sempre nos bons e maus momentos apoiando a sua equipa e dando um espetáculo memorável.

3.º – Quinto classificado da UEFA apurar 3 equipas diretamente para a Liga dos campeões e Doping financeiro de Putin

Quando Portugal ocupava o 5.º lugar do ranking da UEFA, o 3-º classificado do nosso campeonato tinha que jogar o playoff para aceder à prova milionária.

Quando a França passou a ocupar essa posição, o critério mudou. O 5.º classificado pode apurar 3 equipas diretamente, enquanto o 7.º continua a apurar apenas uma diretamente.

Outro dado importante foi a injeção de 1,65 mil milhões de euros em patrocínio camuflado por parte do governo russo no Zenit, Lokomotiv de Moscovo e Dínamo de Moscovo. O comité de controlo financeiro da UEFA encobriu os patrocínios russos que violavam o fair-play financeiro, mas não deixou de ameaçar FC Porto e Sporting por não o cumprirem.

Não querendo que a importância no futebol caísse na Rússia, que ia organizar o Mundial, a UEFA mais uma vez rebaixou Portugal. E mais uma vez a comunicação social nacional não deu o devido protagonismo a este acontecimento, considerando que a descida para o 7.º lugar era apenas um reflexo da qualidade do nosso campeonato.

4.º – Equipas portugueses são as que menos dinheiro recebem na Liga dos Campeões face aos espetadores nos estádios

Como pode relembrar neste artigo, as equipas portuguesas são as que menos dinheiro recebem em direitos televisivos da UEFA face ao número de espetadores que têm. Nas quatro últimas posições do ano anterior estavam os 3 grandes do futebol português e o Basileia.

Com estes 4 exemplos práticos percebemos claramente como Portugal nunca conseguiu valorizar-se como merecia. Como consequência as instituições europeias foram-nos desrespeitando ao longo da história. Por ser uma realidade tão recorrente é fácil perceber que na altura de selecionar equipas para a Superliga Europeia não iria estar uma equipa portuguesa.

Enquanto em Portugal se continuar a celebrar por organizar uma final da Liga do Campeões de 50 em 50 anos, não analisando devidamente todos os outros factos aqui expostos, a UEFA e qualquer outra instituição internacional ou organização europeia vai continuar a desrespeitar o nosso país.

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