Superliga Europeia
A Superliga Europeia pode vir a tornar-se realidade num futuro próximo

Nas últimas semanas, foram divulgadas várias reuniões entre os clubes mais poderosos da Europa que visam a criação de uma Superliga Europeia com onze clubes fundadores: Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Liverpool, Juventus, Paris Saint-Germain, Milan e Bayern Munique. A competição abrange ainda cinco convidados: Atlético de Madrid, Marselha, Inter de Milão, Roma e Borussia Dortmund.

Os onze fundadores teriam presença sempre garantida na competição independente da sua performance desportiva, enquanto que os convidados poderiam variar de ano para ano.

No lote de 16 equipas: cinco são inglesas, quatro são italianas, três são espanholas, duas são alemãs e duas francesas.

A análise a este fenómeno que pode revolucionar o futebol e o desporto mundial é complexa e, neste contexto, decidimos fazer um trabalho dividido em várias partes:

  • A causa para se quer criar a competição
  • Porque não existe uma equipa portuguesa
  • Modelo alternativo de competitividade que já existe noutros desportos
  • FC Barcelona em vários desportos, exemplos não suficientes e Soluções

A Causa da Superliga Europeia

 No passado, dia 12 de Junho, foi divulgado aqui: https://www.linhadepasse.com/direitos-televisivos-na-europa-a-explicacao-da-assimetria/ as receitas televisivas das equipas da Liga Espanhola, Italiana, Alemã e Inglesa em 2016/2017. Também divulgamos as receitas dos clubes na Liga dos Campeões no mesmo ano: https://www.linhadepasse.com/o-enfraquecimento-de-portugal-na-liga-dos-campeoes/

Resumidamente, Real Madrid e Barcelona recebem cerca de seis vezes mais no campeonato nacional do que na Liga dos Campeões. O Bayern de Munique mais de três vezes mais e a Juventus mais do dobro. Assim se percebe que o volume de dinheiro ganho na LC é muito menor do que auferido nos respetivos campeonatos nacionais.

Nos campeonatos nacionais, a diferença de qualidade destas equipas perante as equipas classificadas entre o sexto e o último lugar é grande e cada vez se tem acentuado mais. Pode consultar detalhes aqui:  https://www.linhadepasse.com/a-diminuicao-da-competitividade-dos-principais-campeonatos-europeus/

Com campeonatos nacionais cada vez mais desequilibrados e mesmo assim com um volume de negócio tão superior à Liga dos Campeões, é fácil perceber que as principais equipas da Europa sabem que, num mundo cada vez mais global, o dinheiro que recebem é pouco face ao potencial que têm.

Num contexto em que, para os responsáveis dos grandes clubes europeus, cada vez mais a valorização da marca é mais importante que o rendimento e equidade desportiva, percebemos que fazer mais dinheiro é o mais importante.

Posto isto se percebe que os onze clubes fundadores são marcas mundiais que não dependem muito dos resultados desportivos.

O Inter está em 46º no ranking UEFA, o Milan em 62º e o Marselha em 43º. Já Sevilla (6º), FC Porto (12º), Nápoles (13º) e Shakthar Donetsk (15º) são marcas muito menos apetecíveis e, por isso, naturalmente são preteridas.

Mesmo vivendo dos piores períodos na sua história, o Inter e o Milan figurariam nesta competição devido ao seu maior impacto mediático e económico.

Inter de Milão e AC Milan - uma rivalidade histórica
Inter de Milão e AC Milan são gigantes adormecidos na sombra da Juventus

A desigualdade no futebol europeu começou na década de 1980 quando as principais ligas de futebol da Europa começaram a recrutar os melhores estrangeiros. Este fenómeno intensificou-se depois da Lei Bosman, como pode ver aqui: https://www.linhadepasse.com/o-antes-e-depois-da-internacionalizacao-dos-direitos-televisivos/

A internacionalização dos direitos televisivos deu-nos uma desigualdade gritante na prestação de países to top 4 e fora do top 4 que pode ser analisada detalhadamente aqui: https://www.linhadepasse.com/liga-dos-campeoes-a-crescente-desigualdade-do-futebol-europeu/

Nos últimos cinco anos, do top5 do ranking da UEFA, apenas Atlético de Madrid (2018) e Juventus (2014) caíram na fase de grupos. O Barcelona foi eliminado em 2018 pela Roma. Todas as outras eliminações ocorreram em jogos entre equipas do top5.

Mas essa desigualdade não é suficiente para os mais poderosos clubes europeus.

Esta é a razão da globalização levada à expoente máxima. A ideologia, que foi criada a partir dos anos 80, cresceu nos anos 90, solidificou-se nos anos 2000 e tornou proporções mundiais na segunda década do século XXI, com a abertura do mercado asiático e americano.

Esta ideologia defende que cada adepto de futebol no Mundo deve apoiar um clube poderoso na Europa. Os amantes do futebol são primeiro do clube da sua terra ou de um grande clube do seu país ou vice-versa e quase sempre depois são de Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Liverpool, Inter, Milan ou outro.

Este fenómeno de marketing de globalização do futebol nasceu a 16 de Setembro de 1987, quando o Real Madrid recebeu o Nápoles de Maradona na primeira ronda da Taça dos Campeões Europeus. Os responsáveis do futebol perceberam o dinheiro que perderam com o Napóles ter sido eliminado na primeira ronda e como o atual sistema competitivo não fomentava o crescimento económico dos clubes mais poderosos da Europa.

Com a transmissão de ligas estrangeiras na década de 90, os principais campeonatos começaram a ter receitas que os outros não poderiam ter, criando uma clivagem sem fim à vista no futebol mundial, onde o mérito de formação e o mérito das equipas acabou e foi simplesmente ditado pelo dinheiro. Uma excepção: o FC Porto campeão europeu em 2004 não confirmou a regra.

Mas convém não esquecer que o Barcelona em 2003 ficou em sexto no campeonato espanhol e o Real Madrid em 2004 em quarto. Classificações impensáveis no momento presente e que explicam como a desigualdade tem crescido cada vez mais.

Por todo este caminho o domínio das competições de clubes da UEFA deixou de ser extremamente desportivo e passou a ser político e económico.

Basta verificar que os cinco países do topo do ranking da UEFA (Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França) são também os cinco fundadores da Eurovisão, os chamados “Big Five”, naquele que é considerado o maior espetáculo de entretenimento do Mundo. Estes são também os cinco países europeus que mais turistas recebem.

Portanto, em tudo o que esteja relacionado com um grande impacto mediático, com a valorização de uma marca, estes cinco países estão sempre nos cinco primeiros lugares. Isto é uma consequência do marketing e não futebol, da música ou do turismo em particular.

Posto isto, parece-me anedótico pensar que a Superliga Europeia vai criar desigualdade no futebol europeu quando, desde a Lei Bosman, apenas por cinco vezes países fora do top 5 eliminaram candidatos ao título na Liga dos Campeões e foram duas vezes às meias-finais quando antes houve 41 eliminações e 57 presenças em meias-finais: https://www.linhadepasse.com/liga-dos-campeoes-a-crescente-desigualdade-do-futebol-europeu/

Mais à frente, iremos explicar, com base num modelo de outros desportos, como futebol poderia diminuir a desigualdade competitiva da principal prova de clubes.

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João Perfeito
Tenho 27 anos e sou verdadeiramente apaixonado pelo futebol desde os 9 anos. O célebre Portugal-Inglaterra do Euro 2000 permitiu-me apaixonar-me por este jogo que alia emoção, inteligência, espírito colectivo,arte, incerteza e superação. Desde aí nunca deixei de acompanhar com profundidade o futebol nacional e internacional. Licenciei-me em Ciências da comunicação, fui colaborador de conteúdos do Museu do Sport Lisboa e Benfica e colaborador estatístico da I Gala Quinas de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol em 2015. E neste contexto a minha paixão pela escrita e pela estatística intersecta-se com o futebol. Aqui no Linha de Passe pretendo escrever sobre a actualidade e história deste desporto fantástico sempre recorrendo aos dados que considerar mais oportunos para poder transmitir ao máximo a minha visão sobre a beleza do futebol.