Correria no hospital. Um jovem de 19 anos é levado para a sala cirúrgica após ser baleado na cabeça. A primeira operação é feita e o diagnóstico é critico: traumatismo craniano. São 24 dias de tensão no hospital, sendo 19 na UTI. As chances são remotas, apenas 1% de probabilidade de sobrevivência. Os médicos, desacreditados, sugerem o desligamento dos aparelhos. A família rejeita de imediato. Mantém as esperanças. No décimo oitavo dia, o que parecia impossível aconteceu. O rapaz abre os olhos, para a surpresa da equipe médica e para a felicidade dos familiares. Uma nova oportunidade de vida.

Já vimos esta cena em diversos filmes de Hollywood, mas o caso acima é real. Anderson Rossa Moura, hoje com 27 anos, é um sobrevivente de uma tragédia ligada ao esporte. O curitibano estava presente na barbárie que tomou conta do estádio Couto Pereira, em 6 de dezembro de 2009, em partida válida pela última rodada do Brasileirão entre Coritiba e Fluminense. E ele nem tinha ingresso. “Eu saí da prova do Enem e fui esperar meu irmão em um bar, aí vi que tinha o jogo e convidei meu irmão para ir lá. Chegamos e nem ingresso tinha. Os portões foram abertos e nós entramos no estádio, e em meio à confusão de tanta gente, eu acabei me separando dele”.

Imagem da barbárie que marcou aquele 6 de dezembro de 2009

Os portões citados foram abertos cinco minutos antes do apito final, quando a partida já estava 1×1 e rebaixava o Coritiba para a segunda divisão. Após a invasão de torcedores alviverdes, policiais começaram a disparar balas de borracha. Anderson então se abaixou. Quando levantou, percebeu cerca de dez policiais a cinco metros de distância. “Eu pensei: eles não vão querer atirar, estou na arquibancada. Vão atirar por quê? Ele foi e atirou”, lembra o torcedor, que na época estudava Gastronomia. O cabo Cláudio Roberto Pereira Ramos foi o autor do disparo. A reportagem tentou contato com ele, que não quis comentar o caso. Ele não sofreu punição. Moura levou um tiro na cabeça e ficou entre a vida e a morte. “A médica disse para a minha mãe que não tinha mais volta, estava cansada de ver gente vegetando”, lembra. Mas Maria Inês, a mãe, muito religiosa, não permitiu.

Passado o susto e já sem risco de morte, veio então a recuperação. Teve de reaprender tudo. O mais difícil foi recomeçar a falar. Depois, a vontade de andar. Tudo isso com a memória voltando aos poucos, a ponto de ficar assustado ao ver um chuveiro funcionando. “Quando acordei, eu não sabia de nada da minha vida. Não reconhecia as pessoas e via todo mundo de branco, achei que estava no céu. É um milagre eu estar vivo”.

Anderson conta com uma pequena ajuda do Coritiba, que paga sua fisioterapia. O jovem continua acompanhando as partidas do time, mas agora pela televisão. Nada de estádios. “Eu consigo ir aos jogos de graça por causa do acidente. Se fosse pra eu ir, eu não teria problema. Mas não sou fanático, e acho que não vale mais a pena. Agora, quem invadiu e quem atirou têm de ser punidos”, comenta. O policial Cláudio Ramos foi absolvido pela Justiça Militar e continua seu trabalho normalmente. Diferentemente de alguns invasores.

Júri popular dá exemplo no Paraná

O Tribunal de Justiça do Paraná deu um bom exemplo de como lidar com o vandalismo no futebol. Seis torcedores do Coritiba foram condenados pela selvageria no Couto Pereira, em 2009, depois do rebaixamento do Coxa para a Série B. Reimakler Allan Graboski, ex-presidente da torcida organizada Império Alviverde, pegou oito anos e quatro meses de cadeia. Ele já havia sido preso outras vezes por brigas e porte ilegal de arma. Adriano Sutil Oliveira, Gilson da Silva e Sidnei Cesar de Lima pegaram sete anos e seis meses de prisão. Os quatro foram condenados por tentativa de homicídio qualificado e devem ficar presos em regime fechado. Saíram algemados do tribunal. Outros dois, Renato Marcos Moreira e Alan Garcia Barbosa, por lesões corporais graves, pegaram pena menor e vão ficar em semiaberto.

“A condenação é uma resposta da sociedade curitibana à prática de condutas corriqueiras e criminosas por parte das torcidas organizadas, cujos grupos delimitam os territórios da capital sobre os quais imaginam ter o domínio, valendo-se da massa para perturbar a ordem pública e cometer delitos. No entanto, o Estado está vigilante e resolutivo para coibir ações dessa natureza”, disse o promotor de Justiça Marcelo Balzer Correia, em nota do Ministério Público.

Brasil é campeão… de mortos

O Brasil é o país com o maior número de mortos por conta de brigas em torcidas organizadas, aponta o sociólogo Mauricio Murad, autor do livro “Para entender a violência no futebol”. Murad estuda a violência no futebol há 26 anos e afirma que o problema é cultural. “Existe uma cultura de violência. Ela é generalizada, mas no caso brasileiro, ela é mais aguda e alimenta do contexto geral da sociedade brasileira que é uma sociedade com um grau de violência muito grande”, conta.

Confusão em confronto entre Palmeiras e São Paulo, em 1995, marcou os confrontos entre torcidas na capital paulista

A pesquisa do sociólogo mostra também que o estado mais violento do país é São Paulo, seguido pelo Rio Grande do Norte e Pernambuco. Foram mais de 100 mortos no país até 2017. A primeira morte ligada à violência no futebol aconteceu em 1988, quando Cléo Sóstenes Dantas da Silva, 24 anos, foi assassinado em frente à sede da torcida do Palmeiras, seu clube de coração. Ele era presidente da Torcida Mancha Verde. O Rio de Janeiro, apesar de possuir a maior torcida do país, não se destaca neste índice. “O Rio de Janeiro é o único local no Brasil que tem uma polícia especializada para segurança nos ginásios que é o GEPE (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios). Isso faz diferença, embora ainda precise treinar, qualificar e organizar melhor”, explica Murad.

Mauricio afirma que torcida única ou punições aos clubes não são eficazes. Para ele, as medidas precisam ser mais amplas. “Eu acho que é um conjunto integrado de medidas repressivas, preventivas e reeducativas que integradas podem resolver isto. O problema da violência tem se repetido e as medidas para resolver este problema têm sido ineficientes. Isto acontece no mundo todo, mas a impunidade no Brasil ela é uma coisa drástica, radical, que estimula novos delitos”, finaliza.

Comentários