Arsene Wenger
Fonte: Goal.com

O francês Arsène Wenger encerra esta temporada um ciclo de 22 anos como timoneiro principal do Arsenal. Uma viajem longa e recheada de tanto para contar.

A Revolução

Na década de noventa, o futebol inglês vivia um período de transição. A “Tragédia de Hillsborough” de 1989 – onde noventa e seis adeptos do Liverpool perderam a vida e setecentos e sessenta e seis ficaram feridos – levou a cabo uma mudança radical nas normas de segurança dos estádios e, com o surgimento em cena do canal Sky Sports TV em 1992/93, a liga inglesa assumiu o formato “Premier League” que perdura até aos dias de hoje. No que ao desporto propriamente dito diz respeito, porém, tudo permanecia relativamente igual, desde métodos de treino a táticas de jogo.

É neste contexto que, em setembro de 1996, Arsène Wenger aterra em Londres. A sua chegada dificilmente poderia ter causado maior desconfiança no seio dos adeptos do Arsenal. Afinal, que aficionado de um grande clube daria a sua confiança a um treinador com um passado pouco relevante como jogador, vindo do Japão, com aspeto de bibliotecário e, ainda por cima, estrangeiro (foi somente o terceiro técnico “forasteiro” na Premier League)?

No entanto, pouco tardou para que “O Professor” – alcunha obtida graças à sua aparência e ao facto de ser formado em Economia – conquistasse o apoio das hostes gunners. Até então, era costume ouvir-se nas bancadas o cântico “one-nil to Arsenal” (“um-zero para o Arsenal”), o que espelha bem o futebol defensivo praticado pela equipa. Com Wenger ao leme, o estilo de jogo mudou completamente: o rigor posicional e risco reduzido deram lugar a um futebol mais ofensivo, mais assente em toques curtos e rápidos, dando maior liberdade de expressão aos jogadores.

Outra das mudanças implementadas pelo técnico francês foi o foco na nutrição dos atletas. Rigorosas dietas eram planeadas individualmente para cada elemento do plantel e as bebidas alcoólicas foram completamente proibidas. Se, hoje em dia, tudo isto parece normal no futebol de elite, naquela época, foi totalmente inovador, tendo mesmo sido recebido com algum ceticismo numa fase inicial.

Apesar do impacto das medidas anteriores no clube, a mais determinante de todas terá sido a reforma ao nível do scouting. Ainda que nos últimos anos tenha decidido gastar quantias mais elevadas em elementos como Ozil, Alexis ou Lacazette, Wenger sempre deu primazia em trazer para Londres jogadores de baixo custo envolvido, jovens, relativamente desconhecidos ou em fases menos positivas das respetivas carreiras, com especial preferência para jogadores franceses.

Assim, chegaram ao Arsenal, ao longo do seu reinado, nomes como Henry, Vieira, Pirés, Sagna, Clichy, Nasri, Koscielny, Giroud, entre dezenas de outros. As camadas jovens mereceram também uma atenção especial, tendo sido inúmeros os juniores contratados para os escalões de formação que viriam a vingar no plantel principal: Kolo Touré, Fàbregas, Szczesny, Wilshere, Ramsey, Kieran Gibbs e Bellerín são apenas alguns exemplos.

A Glória

Fonte: Premier League

As revoluções impostas por Arsène Wenger cedo apresentaram resultados práticos. Na época seguinte a ter assinado pelo clube, em 1997/98, o Arsenal faz a dobradinha ao conquistar o campeonato e a FA Cup. Foi o primeiro treinador estrangeiro a consegui-lo na Premier League, tendo repetido o feito em 2002. No ano seguinte, adiciona mais uma taça inglesa às vitrinas do museu do clube. Mas o melhor estava reservado para a temporada seguinte.

Em 2003/2004, Wenger consegue o feito de maior relevo na carreira. Não pelo número de títulos ganhos, já que foi eliminado nas meias-finais da FA Cup e Taça da Liga e nos quartos-de-final da Liga dos Campeões; na verdade, o Arsenal “só” conquistou o campeonato. Mas a forma como os gunners o alcançaram elevaram-nos ao estatuto de lendas da Premier League, sendo mesmo considerada a melhor equipa de sempre da competição.

Contratado nesse verão ao Borussia Dortmund, o guardião alemão Jens Lehmann comandava uma defesa onde figuravam elementos como Sol Campbell e Ashley Cole. Patrick Vieira era o patrão do meio-campo, deixando as alas a cargo dos criativos Pirès e Ljungberg. A chave para o sucesso da equipa, porém, estava na dupla atacante: Dennis Bergkamp e, claro está, Thierry Henry. O holandês, um dos melhores tecnicistas de sempre deste desporto, ficava a cargo das assistências, embora não deixasse de marcar autênticas “pérolas” sempre que a oportunidade aparecia.

Já o francês, era o homem-golo – só na liga, marcou trinta, arrecadando a “Bota de Ouro” daquele campeonato, prémio que ganhou em três outras ocasiões, mais que qualquer outro na história da Premier League. E muita da “culpa” pode ser atribuída a Wenger, que transformou um extremo talentoso mas irregular num ponta-de-lança de excelência, tornando Henry numa lenda do futebol mundial.

O resultado final desta receita foi avassalador: o Arsenal tomou de assalto o campeonato, conquistando-o sem qualquer derrota. A única outra equipa a poder gabar-se de semelhante feito é o Preston North End, que permaneceu imbatível em 1888-89, na época inaugural do futebol inglês. Passados cento e quinze anos, o testemunho dos “Invencíveis” mudava de mãos.

A Apatia

Fonte: sport.news.am

O enorme êxito conseguido na temporada 2003/04 não voltou a ter seguimento no resto do longo percurso de Wenger no Arsenal. Apesar de ter trazido mais quatro Taças de Inglaterra para Londres – é o treinador que mais vezes levantou a FA Cup – e de, em 2006, ter perdido a final da Liga dos Campeões para o Barcelona, não mais voltou a ganhar o campeonato.

A principal razão desta incapacidade de conquistar títulos importantes terá sido o modelo financeiro idealizado pelo francês. O milionário russo Roman Abramovich adquiriu o Chelsea em 2003 e, desde então, não poupou a despesas para reforçar o plantel. Entretanto, os rivais Manchester United e Liverpool faziam os possíveis para acompanhar a nova realidade do mercado futebolístico, pagando somas cada vez maiores para trazer jogadores para as respetivas fileiras. Em 2008, foi a vez do “novo-rico” Manchester City surgir em cena, aproveitando os bolsos fundos do Xeque Mansour para gastar rios de dinheiro em contratações sonantes, continuando assim a aumentar a inflação do mercado a cada defeso.

Numa primeira fase, Wenger considerou este fenómeno algo passageiro, uma “moda” que terminaria a curto-prazo. Deste modo, continuou a controlar as finanças do clube a régua e esquadro, focando os gastos na construção do novo estádio, o atual Emirates Stadium, e seguindo o modelo de recrutamento que vinha aplicando até então. E a verdade é que, pese embora o facto de jamais terem voltado a conquistar o campeonato, o Arsenal conseguiu um feito inédito na Premier League e que é demonstrativo da sua regularidade: em vinte anos consecutivos, de 1996 a 2016, os gunners ficaram sempre entre os primeiros quatro classificados da liga.

No entanto, com a equipa a falhar ano após ano o objetivo de ser campeã e a cair sistematicamente nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões desde 2010, Wenger começou a ser alvo crescente de crítica por parte dos adeptos. Apesar de, a partir de 2013, ter cedido à nova realidade do mercado gastando somas mais avultadas em transferências, essa contestação não refreou, tendo atingido contornos mais expressivos no final da época passada, quando o Arsenal ficou, por fim, fora do top-4 da Premier League e falhou a qualificação para a Champions.

Atualmente, os gunners estão no sexto posto do campeonato, atrás dos rivais londrinos Chelsea e Tottenham e sem hipóteses de alcançar os quatro primeiros. Perante este cenário, Wenger anunciou que sairá do Arsenal quando a corrente temporada terminar, vinte e dois anos depois de ter chegado ao clube. Após esta notícia ter sido divulgada, multiplicaram-se as manifestações de jogadores nas redes sociais a reunir as tropas com o intuito de oferecerem ao seu treinador de sempre a Liga Europa como presente de despedida. Tal desejo, porém, não se concretizou, tendo os gunners sido eliminados da prova nas meias-finais pelo Atlético de Madrid.

Contudo, esse objetivo falhado não mancha o legado que o técnico francês construiu no Arsenal. Para além de membros do atual plantel, também inúmeros ex-jogadores de Wenger, bem como outras figuras de proa do futebol inglês, deixaram o seu testemunho a homenagear “O Professor”. Afinal, Arsène Wenger não se limitou a incutir uma nova identidade nas raízes do clube londrino. Foi igualmente um completo inovador no estilo de futebol praticado em terras de Sua Majestade, onde é por demais evidente um “antes” e um “depois” da sua chegada.

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José Rocha
Nasci na ilha Terceira, Açores, em 1993. Assim que atingi idade para tal, inscrevi-me nas escolinhas de um dos clubes locais, o Angrense. A habilidade para praticar futebol, contudo, não era proporcional à paixão que tinha pelo desporto-rei, pelo que não fui longe enquanto jogador. Posto isto, troquei as chuteiras pela caneta e continuei a procurar saber cada vez mais acerca desta modalidade, que tantos sentimentos desperta por esse mundo fora. Licenciado em Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, passei pelo jornal O Jogo, onde pude continuar a desenvolver as minhas capacidades como jornalista desportivo. Neste espaço, onde os universos do futebol e da escrita se fundem, pretendo abordar temas da atualidade desportiva, bem como "desenterrar" antigas memórias e partilhá-las convosco.