Xavi Hernandez - Espanha

2 de Julho de 1950, Telmo Zarra aos 48 minutos marca frente à Inglaterra e a Espanha pela primeira vez na história fica entre os quatro melhores num Mundial (nesse Mundial não houve meias-finais, mas sim um grupo de quatro). Esse golo foi relatado pelo histórico jornalista espanhol Matias Prats e está presente no seu museu na localidade espanhola de Villa del Río, Córdoba.

A importância deste golo prende-se pelo facto de a Espanha nas décadas posteriores nunca ter conseguido de forma consistente assumir-se como uma força hegemónica no futebol europeu e Mundial.

Um 4º lugar de um Mundial é sobrevalorizado porque a selecção não conseguiu durante 60 anos voltar às meias finais. Nos 14 Mundiais seguintes a Espanha participou em 10 edições e apenas em três delas chegou aos quartos de final.

Nos Europeus, venceu o Euro de 1964 e foi finalista em 1984. Mas entre 1968, em 1960 (desistiu por razões políticas), e 2008 teve mais 9 vezes eliminações antes de chegar às Meias-Finais

Entre 1950 e 2008, a Espanha conseguiu 11 presenças em quartos-de-final (ou fase equivalente com outro formato) de Europeus e Mundiais, mas apenas por duas vezes passou às meias-finais.

A seleção Espanhola era até 2008 uma boa seleção, mas sem o peso histórico de Argentina, Brasil, Uruguai, Alemanha, Itália e até mesmo França.

O aparecimento de Xavi e a mudança de paradigma na seleção espanhola

Recordando os Cadernos de ABOLA do Euro 2008, após uma época fracassante do Barcelona de Rijkard, é referido sobre Xavi Hernandez: “Um dos melhores médios do futebol mundial, um dos raros jogadores que consegue defender e atacar num plano elevado“.

Era este o simples elogio a um jogador que era na altura simplesmente um dos melhores. Na Liga dos Campeões de 2005/2006 não somou qualquer minuto a partir dos oitavos-de-final, sendo por isso uma presença residual na equipa catalã.

No Euro 2008 nasce o tiki-taka espanhol que posteriormente é adoptado pelo Barcelona (Guardiola entra no ano a seguir) e não o contrário.

A equipa espanhola assente num meio-campo fortíssimo com Senna e Iniesta a completar o triângulo jogava um futebol onde a perfeição pela posse de bola quase se confunde com o critério para ocupar espaços a defender e impedir os adversários de marcar golos. Estava a nascer a melhor seleção da história do futebol mundial.

Aos 28 anos, Xavi estava na maturidade táctica para organizar e defender como ninguém, comandar a equipa em todos os processos de jogo, dominando o adversário com e sem bola, com um futebol em que o volume de jogo ofensivo não hipotecava a transição defensiva (falando da seleção espanhola).

Neste contexto a Espanha venceu o Euro 2008, o Mundial 2010 e o Euro 2012. Mais do que a qualidade de jogo em posse dos espanhóis, que entrou para as páginas mais douradas da história do futebol, é de salientar a consistência defensiva de nuestros hermanos.

A Espanha entre 2008 e 2012, em 10 jogos a eliminar em fases finais, sofreu 0 golos! Os adversários não tinham espaço para correr com a bola, os poucos remates que faziam eram apertados e quando falhava a última pressão estava lá Casilhas para resolver. A Espanha era uma equipa perfeita a defender. Equilibrada, a saber o que fazer em cada momento de jogo e cada vez mais completa.

Basta ver os golos da final do Euro 2012 contra a Itália, em que vemos uma equipa também a apostar na profundidade. A Espanha fazia um carrossel com uma velocidade estonteante, tinha uma capacidade de finalização fortíssima e uma capacidade de pressão ao homem da bola que deve ser mostrada a todos os miúdos que sonham ser futebolistas.

O cérebro de toda esta orquestra era Xavi Hernandez. Mais do que os seus passes, as suas recuperações de bola, as suas triangulações, as suas aberturas laterais ou passes rasteiros em profundidade, as suas penetrações sem bola para a definição de jogadas, Xavi “fazia os outros jogar”. Xavi pautava os batimentos cardíacos da equipa, pensava mais rápido que todos os outros e fazia funcionar a orquestra com uma rapidez e simplicidade fantástica. Todos os outros eram melhores com ele, bastava interpretar o que o maestro Xavi pedia e o sucesso era uma questão de tempo.

A influência de Xavi também no Barcelona

Xavi Hernandez - Barcelona
Xavi Hernandez jogou 17 anos na equipa principal do FC Barcelona, onde conquistou oito títulos de campeão espanhol, três da Copa do Rei, quatro da Champions League e dois do Mundial de clubes.

E foi assim também que no Barcelona venceu duas Ligas dos Campeões e esteve presente em seis meias-finais consecutivas entre 2008 e 2013. Aqui num esquema de maior volume de jogo, maior rapidez de processo e maior troca de passes em zonas adiantadas, o Barcelona era uma equipa mais desequilibrada defensivamente que a Espanha, mas não deixou de ter a hegemonia do futebol Mundial.

Neste contexto entre 2008 e 2013 Messi marca 14 golos a partir dos quartos-de-final da Liga dos Campeões. O Barcelona vence a Liga dos Campeões por duas vezes e o astro argentina vence quatro Bolas de Ouro consecutivas (2009-2012). Uma superioridade evidente perante Cristiano Ronaldo em Bolas de Ouro. Desde 2013, Messi só marcou mais dois golos a partir dos quartos de final.

Na época 2013/2014 com Tata Martino o Barcelona joga um futebol enfadonho, com dificuldade de velocidade de processos. A equipa é surpreendida pelo Atlético de Madrid no campeonato Espanhol e na Liga dos Campeões. Koke vence claramente a batalha no meio-campo com Xavi na segunda mão dos Quartos de Final, Messi apenas percorre 6,5 Km em campo, apenas mais 1 que o guarda-redes Pinto.

O Barcelona era uma equipa lenta, sem alma, sem organização, sem criatividade, anulada pela melhor equipa do mundo defensivamente, que tapava todos os buracos.

O dia 9 de Abril de 2014 anunciava a queda de Xavi Hernandéz. Nunca mais foi o mesmo depois dessa eliminação.

No Mundial do Brasil a Espanha sofreu transições imperdoáveis perante a Holanda e no jogo com o Chile, Vidal venceu claramente o duelo com Xavi.

A Espanha e o Barcelona não se podiam encontrar em campo sem o seu maestro, sem o seu definidor de jogo, que pautava todos os ritmos da equipa. A consistência e motivação dos colegas estava a perder-se.

Iniesta tinha apenas 29 anos, Messi tinha 27 anos em 2014 e nunca mais foram os mesmos. Sabendo que Cristiano Ronaldo está em constante evolução e que estes dois mágicos estavam ainda em idades para progredir face às suas características, mas sem o maestro Xavi todo se tornava diferente.

Não falo de influência directa. Daniel Alves é o jogador com mais assistências para Messi no Barcelona, falo apenas da influência no modelo de jogo.

Todo o processo ofensivo sem Xavi é mais lento e com menor qualidade, a criatividade dos mágicos diminui e o Barcelona e a Espanha tornavam-se equipas previsíveis que pontualmente brilhavam.

Em 2014/2015 o Barcelona vence a Liga dos Campeões já com Rakitic e Xavi como suplente, mas a profundidade com Neymar e Suaréz não permite criar uma era de sucesso europeu. A surpresa de Luis Enrique não tinha consistência para continuar a brilhar. Os adversários estudaram o novo Barcelona e daí para cá a equipa não passou dos Quartos-de-Final até hoje.

Em 2016, já sem Xavi a Espanha foi comida tacticamente perante a Croácia e a Itália, que com transições rapidíssimas surpreenderam a então campeã europeia. A Espanha estava mais uma vez fora dos Quartos de Final.

No Mundial 2018 vemos uma Espanha com erros defensivos monumentais, com 4 golos marcados de pura ficção, com uma posse de bola lentíssima, excessivamente dependente de Isco e sem soluções em ataque organizado perante equipas que se sabem fechar.

A Espanha pela terceira vez consecutiva ficava fora dos quartos de final de uma fase final perante uma Rússia que não foi mais que uma equipa minimamente organizada e lutadora em prol da conquista de uma epopeia histórica.

Existe um antes e um despois de Xavi no Barcelona e na seleção Espanhola claramente evidente.

O Barcelona reforçou-se com Neymar, Suarez, soluções muito melhores que Pedro ou Villa. A Espanha viu aparecer Carvajal, melhor solução que Arbeloa. Teve a oportunidade de ter em Diego Costa uma solução quando Torres se ai eclipsando. Sérgio Ramos estava cada vez melhor e ia ganhando títulos internacionais pelo Real Madrid.

Mas não estava lá Xavi, o mentor, criador, desestabilizador com e sem bola. Simplesmente o pai do sucesso do Barcelona e da Espanha.

Vivemos num universo futebolístico em que Messi e Iniesta são sempre considerados como as grandes referências de Barcelona e de Espanha, mas esquecemo-nos de que estes tem um rendimento diferente com e sem Xavi.

Ignorar isto é não quer diagnosticar o problema. E quando não se diagnostica mais dificilmente se resolve.

Por tudo isto penso que é justo fazer esta referência aquele que no pico da forma é claramente o melhor médio do futebol mundial dos últimos 20 anos.

Espanha até 2008 e depois de 2013, 3 presenças em Meias-Finais em 27 possíveis. Espanha de 2008-2013 3 títulos em 3 possíveis.

Classificações da Espanha em Fases Finais:

Espanha Antes de 2008 2008-2013 Depois de 2014
FG/NQ (Euro) (16º-32º) 2 0 1
OF/FG (Euro) (9º-16º) 8 0 2
QF (5º-8º) 11 0 0
MF (3º-4º) 1 0 0
F (2º) 1 0 0
V (1º) 1 3 0

 

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